Conversando com um produtor, ouvi uma frase que ficou na minha cabeça:

“A colheita foi muito boa, mas nunca fiz tanta conta para pensar na próxima safra.”

Quanto mais pensei nessa frase, mais percebi que ela resume bem o momento que o agro vive.

Há alguns anos, a maior preocupação era produzir mais. E isso continua sendo muito importante. O problema é que produzir mais não significa, necessariamente, ganhar mais. Hoje é preciso sentar com calma e fazer as contas para saber quanto realmente sobra depois de pagar todas as despesas.

Os boletins do IMEA mostram uma safra robusta para culturas como soja, milho e algodão. Isso é motivo de orgulho para o produtor brasileiro e Matogrossense. Mas os mesmos relatórios mostram que a preocupação vai muito além da comercialização da produção. Os custos vêm aumentando e acabam pressionando a rentabilidade.

Fertilizantes continuam sofrendo influência do cenário internacional, seja por conflitos, dificuldades logísticas ou restrições na oferta de matérias-primas. O diesel também continua sendo uma das principais despesas da propriedade rural. Somando tudo isso, o produtor percebe que produzir ficou cada vez mais caro.

Ao mesmo tempo, o Brasil não produz sozinho. Outros grandes produtores também registram boas safras, aumentando a oferta mundial e pressionando os preços. É a velha lei da oferta e da procura. Quando a oferta aumenta, o preço tende a perder força.

Uma lavoura bonita nem sempre é sinal de lucro. Quem passa pela estrada enxerga uma boa produção. Quem senta para fazer as contas encontra uma realidade diferente. Arrendamentos altos, custos operacionais apertados e um mercado cada vez mais sensível fazem com que qualquer mudança no preço dos insumos ou do frete altere todo o planejamento da próxima safra.

Talvez seja por isso que quem vive no campo comemore uma boa colheita e, ao mesmo tempo, já esteja preocupado com a próxima. Não é pessimismo. É a experiência de quem aprendeu que produzir bem é apenas uma parte do trabalho. O verdadeiro desafio é fazer a conta fechar.

Depois daquela conversa, fiquei pensando naquela frase.

Talvez ela explique o momento do agro melhor do que muitos gráficos e indicadores.

Nunca colhi tanto. Mas talvez nunca tenha sido tão importante fazer tanta conta antes de decidir a próxima safra.

Luiz Henrique A. Carvalho, Administração em Agronegócios pela Unemat de Tangará