Tempos atrás, no meu consultório, atendi uma mãe visivelmente esgotada. Em um momento da sessão, ela respirou fundo, olhou para mim com os olhos marejados e desabafou:
— Euller, acho que a minha vida está assim hoje porque eu amei demais o meu filho.
Quando ouvi aquilo, fiquei ali sentado no meu canto refletindo, enquanto um filme passava na minha cabeça. Confesso que essa fala me tocou muito, pois não foi a primeira vez que escutei isso. Lembrei também de mim, lá em casa com a minha filha, buscando todos os dias o equilíbrio entre o colo e a firmeza.
Vocês já pararam para pensar quantos pais e mães carregam a culpa de achar que o amor em excesso "estragou" os filhos? Quem vive o desafio de educar sabe o quanto a linha entre o cuidar e o sufocar parece tênue na correria da rotina.
Mas precisamos conversar sério sobre uma coisa: AMOR DEMAIS NÃO ESTRAGA NINGUÉM.
O verdadeiro amor acolhe, beija, abraça e acalenta, mas também sabe dizer "não". O amor demais também impõe limites, estabelece regras e, acima de tudo, reconhece a capacidade do filho. Amar de verdade é preparar para o mundo, mesmo que o nosso coração fique apertado ao vê-los tropeçar.
O que paralisa o desenvolvimento e adoece as relações tem outro nome: SUPERPROTEÇÃO. E acreditem, a superproteção é muito diferente do amor.
Pais, quando fazemos tudo pelos nossos filhos para poupá-los do esforço, quando impedimos que se frustrem, que arrumem a própria bagunça ou que lidem com as consequências de seus atos, não estamos amando demais. Na tentativa ansiosa de blindá-los de qualquer dor, enviamos uma mensagem silenciosa e perigosa: "você não é capaz, deixa que eu faço por você".
A rotina nos deixa no piloto automático, mas o afeto e a educação exigem presença. Nossos filhos precisam de espaço para cair, levantar, chorar a frustração e tentar de novo. Eles precisam sentir que confiamos neles.
Pais, proteger é cuidar do caminho; superproteger é impedir o filho de caminhar.
Não tenha medo de amar intensamente, mas tenha a coragem de dar o limite que orienta e a autonomia que desenvolve. A minha pergunta hoje é simples, porém necessária: você tem amado seu filho para a liberdade ou superprotegido por medo de vê-lo crescer?
Euller Sacramento | Psicólogo Clínico
Site: eullersacramento.com.br







