Na semana passada fui com minha filha a um evento de lançamento do BNI, um grupo de empresários e empresárias que se reúne regularmente para fazer negócios, trocar indicações e crescer juntos. Fomos dar apoio à Ana Flávia, minha esposa, psicóloga, que estava lá se apresentando pela primeira vez naquele lançamento, construindo o espaço dela entre pessoas que ainda não a conheciam.

Fiquei sentado num canto com ela do meu lado, observando tudo. E ali, naquele salão cheio de cartões de visita e discursos de propósito, o que me chamou a atenção não foi o networking nem os rituais do grupo. Foi a minha esposa me olhando duas vezes durante a apresentação, só para checar se estávamos ali. Nas duas vezes, ela respirou diferente. Relaxou visivelmente. O corpo inteiro mudou de postura.

Presença faz isso com a gente. Não precisa dizer nada. Só estar já basta. Fiquei pensando o quanto aquele gesto simples, esposo, filha e amigas numa mesa, numa noite de quarta-feira, representava algo que tanta gente ainda trata como favor. Mas apoiar quem você ama não é favor. É parte do acordo que se firma quando se escolhe construir uma vida junto com alguém. Ninguém deveria precisar pedir isso duas vezes.

O que me intriga, depois de tantos anos de clínica, é ver com que frequência aparece o avesso exato dessa cena. Famílias que chegam em dinâmicas de distanciamento, onde o apoio existe farto no discurso, mas desaparece na prática. Casais em que a mulher abdicou de carreira, de tempo, de projetos pessoais inteiros, para estar ao lado do marido e o faz sem hesitar, sem contabilizar, sem pedir reconhecimento. Mas quando a situação se inverte, quando ela precisa do mínimo de presença, de comparecer a um evento, de uma tarde fora da rotina, o marido se sente humilhado. Como se estar ao lado da esposa fosse uma concessão, e não uma escolha natural de quem ama.

Família não é só aquilo que a gente diz que valoriza. É o que a gente aparece para defender, mesmo quando não foi convidado, mesmo quando poderia estar em casa, mesmo quando ninguém vai perceber. Minha filha não entendeu nada sobre BNI naquela noite. Mas aprendeu, do jeito dela, que quando alguém que amamos está fazendo algo importante, a gente vai junto. Sem precisar ser chamado duas vezes. Sem transformar isso em sacrifício.

Euller Sacramento é Psicólogo Clínico
Instagram: @eullersacramento