A primeira cirurgia de readequação genital no Brasil aconteceu em 1971. Mais de cinquenta anos se passaram e o procedimento ainda não foi realizado em Mato Grosso. Apesar da distância cronológica, o Estado está próximo de alcançar o marco, devido a primeira equipe médica apta a realizar o procedimento, composta por dois urologistas, Elder Oliveira (MT) e Luiz Westin (RJ). A readequação é uma etapa importante para que transgêneros alcancem qualidade de vida e realização pessoal, pois adéqua o órgão genital ao gênero, sonho de muitos.
De acordo com o urologista especialista em reconstrução urogenital, Luiz Westin, a cirurgia demanda cuidados como outra qualquer.
“É uma cirurgia que dura em torno de cinco a seis horas, a paciente geralmente fica com um molde no interior da vagina e em cuidados dentro do hospital em torno de quatro a seis dias. Durante os seis primeiros meses de pós operatório, são obrigatórias as sessões de dilatação vaginal. Nós liberamos o sexo penetrativo depois de três meses de pós operatório”.
Westin explica que a urologia é apenas uma parte da equipe envolvida.
“Tem assistentes sociais, psicólogos, psiquiatras, ginecologistas, cirurgiões plásticos e endocrinologistas”.
Também ressalta que a transição de gênero não se limita a cirurgia.
“Quando se inicia a hormonização e começam haver as modificações corporais, quando se faz a mudança da documentação, é um marco. Mas o maior desejo é se ver livre da genitália masculina”.
Para realizar a cirurgia, o paciente deve ter acompanhamento psiquiátrico prévio de um ano e laudo atestando a possibilidade de operar, pois se trata de uma cirurgia irreversível. O psiquiatra, professor universitário e membro da World Professional Association for Transgender Health (WPATH), Bernardo Rahe, explica a necessidade do requisito.
“Esse acompanhamento prévio se dá muito mais pra gente entender a situação de vulnerabilidade, fazer diagnóstico de transtornos e ver se o paciente tem capacidade plena de tomar suas decisões”.
Uma questão comum diz respeito a vida sexual depois do procedimento. Segundo o urologista Elder Oliveira, no caso das mulheres, a neovagina é funcional.
“Na readequação genital da mulher, persiste a sensibilidade e possibilidade de orgasmo com clitóris. Na cirurgia do homem, existem duas possibilidades. Se o homem deseja o pênis funcional, utilizamos um clitóris mais hipertrofiado, mas que mantém a sensibilidade. Se deseja um neofalo, muitas vezes não vai ter sensibilidade. Mas, no geral, na cirurgia mais comum (mulher trans), mantém a sensibilidade”.
Moradora de Cuiabá, Maria Almeida é uma mulher de 32 anos que sonha em fazer a readequação desde a adolescência, quando descobriu a verdadeira identidade na figura feminina.
“Almejo a cirurgia não só para me sentir completa externamente como mulher, mas como ser humano que se ama e ama cada pedacinho do seu corpo, poder completar minha transição com a cirurgia de redesignação sexual seria como enfim encontrar a paz comigo mesma”.Cirurgia é uma grande conquista científica na medicina moderna
A cirurgia de readequação genital é uma grande conquista científica para a medicina moderna e também um avanço significativo na luta por direitos e representatividade da comunidade LGBTQIA+, pois possibilita que transgêneros vivam em corpos que se identificam, viabilizando uma existência mais feliz e saudável. Trans é toda pessoa que nasce e não se reconhece com o gênero associado ao seu sexo biológico ou não se identifica com nenhum, como os não binários.
Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2020, aproximadamente quatro milhões de pessoas trans e não binárias vivem no Brasil. Tal dado revela a urgência de pautas sobre saúde coletiva para a população LGBTQIA+ nas discussões públicas, sobretudo para transgêneros, parcela mais marginalizada deste grupo social. É preciso entender a realidade de indivíduos trans e capacitar profissionais para o acolhimento e acompanhamento destes pacientes. Somente com diálogo será possível não reprimir ou ignorar a existência natural da transgeneridade e compreender a saúde como estratégia para a inclusão, o respeito e a qualidade de vida para todos.




