Segunda-feira pela manhã, eu estava na sala quando minha filha se aproximou segurando o celular, com aquela expressão curiosa de quem quer entender o mundo. Me mostrou um vídeo. Na tela, uma frase piscava: “Bater em mulher é crime. Em idoso é crime. Em animal é crime. Por que bater em criança é educar?”
Ela tombou a cabeça para o lado e me olhou: papai, por que as pessoas batem nas crianças se é crime bater nos outros?
Aproveitei a deixa. Queria ouvir o que se passava na cabeça dela. Perguntei o que ela achava. Ela hesitou: achava que se a criança fizesse algo errado, a mãe podia bater. Devolvi a reflexão: então, se você fizer algo errado hoje, podemos bater em você para ensinar o certo? Ela arregalou os olhos, pensou e soltou: não... acho que não é certo bater, né?
Aqui em casa, escolhemos o caminho mais difícil: conversar, repetir, explicar. Nunca levantar a mão. Quem é pai ou mãe sabe que não é fácil. São inúmeras repetições do mesmo limite, é exaustivo, é o teste mais duro de paciência que existe.
Mas vocês já pararam para pensar no que realmente acontece na mente de um adulto quando ele bate numa criança? A clínica me fez perceber algo duro: a palmada não é um ato educativo, é um sintoma. Quando o cansaço, os boletos e o estresse transbordam, o adulto perde a capacidade de usar as palavras. Ele não consegue verbalizar a própria frustração. Então, descarrega essa tensão através da força física direto no corpo da criança. É a falha da linguagem.
A criança derrama o suco pela terceira vez. O adulto explode. Ele transfere toda aquela carga emocional acumulada no trabalho, na casa, na vida, para o alvo mais frágil da casa. E, para o adulto não se sentir um agressor, a mente cria uma mentira confortável. Nós racionalizamos. Disfarçamos o nosso descontrole com o discurso de que “é para o bem dela” ou “estou apenas educando”.
O DISCURSO PEDAGÓGICO É SÓ UMA MENTIRA PARA ESCONDER A NOSSA FALTA DE CONTROLE EMOCIONAL.
O tapa não cria respeito. Cria medo. E filho que obedece por medo não aprendeu a regra, aprendeu a se proteger de você. A rotina nos coloca no piloto automático, e no piloto automático a gente reage antes de pensar. Mas a criança não esquece o que acontece nesses momentos. Ela guarda. No corpo, na memória, no jeito como vai tratar quem ela amar um dia.

Euller Sacramento | Psicólogo Clínico
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