Em um fim de tarde ao longo da semana, diante de algumas quadras de areia, me vi envolta por muitas vozes aflitas diante de uma pessoa: “Professor, queremos jogar!” Elas brotavam da areia com suas raquetes, pés dispostos e ágeis no arranjo de duplas. Era um dos muitos dias no treino de mulheres no Beach Tennis, em Tangará da Serra/MT. Entre um murmurinho e outro, por meio da escuta atenta, foi possível identificar características daquele grupo auspicioso: “a babá conseguiu ficar. Graças a Deus!”, “meu marido chegou mais cedo, então saí correndo”. Mulheres, na maioria, entre 25 e 35, brancas, casadas, mães, trabalhadoras, classe média e alta. “a sensação é de sair de um casulo!”, escutei de uma delas. Parece-me que a metamorfose ocorre no intervalo de tempo entre o trabalho, ou casa, e a quadra de areia. A borboleta-aurora (nome fictício de minha interlocutora acima) é uma das mais sorridentes e alegres entre aquela comunidade. Empresária, mãe, casada, seu movimento em quadra é amplo e cadenciado. Outras borboletas acomodam seres em desenvolvimento, em plena revoada. E é lindo de ver! Há também, em minoria, as que nada carregam. Para estas, os voos não têm fim. Observadas pela coruja que já deve ter assimilado as regras do jogo, ao ponto de permanecer sob a rede em plena competição, concorrem os “benditos” quero-quero, em eminente estado de alerta.
O fato é que o beach tennis, seja em Tangará da Serra/MT ou Floripa/SC, assim como outras práticas esportivas, desperta corpos e, neste caso, as mulheres têm me chamado a atenção pela rede de apoio que acabam construindo neste movimento. São organizados grupos para marcar jogos, se o coletivo não se organiza, alguém leva uma comidinha, porque as mulheres sempre estão atentas a esses cuidados, como parte da socialização. Há situações, como os grupos que observei em Floripa, que se articulam para a prática no período vespertino, quando os/as filhos/as estão na escola, por exemplo. No período de férias escolares, a logística de lanches compartilhados e integração entre as crianças/adolescentes é, fortemente, incentivada. Tudo pelo beach tennis! A propósito, frases como: “o beach venceu”, pode indicar o esforço demandado para alcançar a areia. Outra expressão interessante é: “o trabalho sempre atrapalhando o beach”. Não por acaso, alguns/umas praticantes de BT perdem as horas, porque é muito difícil parar de jogar.
O BT é mais que uma modalidade esportiva passageira. A característica da integração parece ter consolidado o modo de ser beachtennistas, pelo menos entre as mulheres. Existem as “duplinhas” formadas muito mais por afinidade que por estratégia para a competição. E as roupas do BT, então?
Marinês da Rosa. Graduada em Ciências Sociais, Mestra em Sociologia Política e Doutora em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Professora adjunta na Universidade Estadual do Mato Grosso. Pesquisadora no campo dos Estudos de Gênero, Sexualidades, Violências e Corporalidades. (Continua na edição de 14/11)




