No entanto, estou tratando de um esporte circunscrito a um grupo social específico socialmente. Sabe-se que a maior parte da população sequer tem acesso a práticas esportivas, tampouco imagina esta possibilidade. De origem europeia, esta modalidade, de um modo geral, tem um público próprio. Nesse sentido, outro dia, dialoguei com minha amiga de Floripa sobre a ação do cuidado que eu notava entre as beachtennistas. Como já compartilhamos experiências de escuta junto a grupos marginalizados socialmente, inclusive, entre algumas mulheres no cárcere, ela me chamou a atenção para o tipo de cuidado que eu estava observando. É um cuidado entre mulheres da mesma classe social, etnia/raça, geração, salvo algumas exceções, dentre outros marcadores sociais da diferença. Necessariamente, como socióloga, não posso deixar de explicitar esse fato, justamente por estar dentro e fora do fenômeno que problematizo.

Feito este “reparo”, retomo a ideia do esporte com vistas a potencialidade para a integração. Nessa perspectiva, relacionar as categorias de análise gênero e corporaneidades para observar o fenômeno do beach tennis faz sentido, uma vez que a modalidade intensifica e potencializa o engajamento de mulheres mediante o chamado: Bora, amiga. Vamô para o play! Esta é uma ação incorporada pelas praticantes, na comunidade de beachtennistas: chamar a amiga! Seja em treinos, aulas, torneios, em meio a uma prática e outra há o momento da interação, do diálogo, da escuta e do reconhecimento. Constroem-se laços coletivos, linguagens e códigos são apreendidos e reproduzidos às iniciantes da tribo. Formam-se grupos virtuais, pois a interação se estende para além das quadras comerciais. Embora, esta reflexão contemple percepções de um espaço comercial, destaco que, não por acaso, existem as quadras particulares, em residências e condomínios. Individualmente, a atenção ao corpo é acionada, pois apesar de ser uma modalidade acessível a corpos diversos, a longo prazo, haverá necessidade do fortalecimento e outros cuidados de si para uma performance melhor, pois sempre se deseja avançar de categoria.

De acordo com a Confederação Brasileira de Tênis, o esporte surgiu em meados da década de oitenta na Itália, espraiou-se mundo afora, sendo que a chegada ao Brasil foi em 2008, no Rio de Janeiro. Já o primeiro torneio ocorreu em Florianópolis/SC, em 2010. Vale enfatizar que, durante o evento da pandemia COVID-19, os protocolos de biossegurança asseguram a manutenção da prática que, por sua vez, eclodiu no período pós-pandemia, libertando corpos, liberando os voos das borboletas. Nesse aspecto é importante destacar o impacto do lockdown sobre a vida das mulheres, especialmente, considerando o espaço privado, ainda, representado como âmbito de responsabilidade fundamental delas. Logo, o beach tennis, em uma perspectiva de gênero, está longe de ser uma modinha, ao menos entre as mulheres. Seja como prática esportiva, integrativa, laser, network, autocuidado e, até mesmo, modinha (no sentido de ditar moda), tais como os apetrechos para o rito, há um sentido específico para as mulheres. Nestes termos, conhecer e acompanhar o movimento de corpos para este público específico pode ser um caminho para compreender a necessidade de ofertar e ampliar espaços de acesso à prática em lugares diversos para pessoas diversas, tendo em vista o direito de todas/os ao esporte.

Marinês da Rosa. Graduada em Ciências Sociais, Mestra em Sociologia Política e Doutora em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Professora adjunta na Universidade Estadual do Mato Grosso. Pesquisadora no campo dos Estudos de Gênero, Sexualidades, Violências e Corporalidades. *A terceira e última parte será publicada na edição de quinta-feira, dia 16.