Numa tarde ensolarada, enquanto aguardava na saída da escola, você observa seu filho rindo com amigos. Naquele momento, você se sente aliviado, imaginando que ele está bem adaptado e cercado por uma rede de apoio. Mas, e se em vez disso, ele estiver no núcleo da agressão, sendo não a vítima, mas o autor?

Em nossa cultura, tendemos a associar o bullying quase exclusivamente às vítimas. Ouvimos seus relatos dolorosos e nos comovemos com suas histórias. Entretanto, pouco falamos dos autores dessa violência, muitas vezes retratados unicamente como vilões. Eles também são crianças e adolescentes, e suas ações expressam algo que precisa ser entendido.

Um erro comum é achar que o autor do bullying é puramente mal-intencionado. No entanto, por trás dessa atitude podem se esconder sentimentos de inadequação, frustração ou mesmo experiências anteriores de abuso. Às vezes, o bullying é uma tentativa torcida de recuperar o controle sobre um mundo que parece hostil ou indiferente.

O papel da família é crucial nesse cenário. O ambiente doméstico pode tanto servir como refúgio para um filho(a) em sofrimento quanto perpetuar padrões de agressão e desrespeito. As dinâmicas familiares, a comunicação e o exemplo dos pais têm um impacto direto na formação do caráter e do comportamento dos filhos.

Como psicólogo clínico, especialista no atendimento de crianças e adolescentes, destaco a importância do diálogo aberto. Se desconfia que seu filho possa estar envolvido em episódios de bullying, não o aborde com acusações. Pergunte sobre seu dia, conheça seus amigos e esteja atento às suas emoções. Uma criança que agride também pode estar gritando por ajuda à sua maneira.

A escola, por sua vez, não pode ser um mero observador. É preciso implementar programas de prevenção, promover a empatia e fornecer suporte aos envolvidos, tanto vítimas quanto autores. A intervenção especializada pode ser uma alternativa valiosa. A psicoterapia, por exemplo, é uma ferramenta eficaz para tratar traumas, medos e inseguranças, orientando tanto aqueles que sofrem o bullying quanto os que o cometem.

Portanto, ao enfrentarmos o desafio do bullying, precisamos enxergar além da dicotomia vítima-agressor. Ambos os lados têm suas dores, anseios e necessidades.

Euller Sacramento é Psicólogo Clínico. Instagram: @eullersacramento