A realidade social brasileira se expõe, na sua face mais sombria e cruel, quando conectamos os fios de raça, índice de escolarização e condições econômicas. As diferenças percentuais da desigualdade entre brancos e negros/índios se reproduzem há mais de cem anos e são muito maiores que entre os de características fenotípicas brancas. Os contingentes de afro-brasileiros com menor índice de escolarização vivem em condições de miséria, percebem salários inferiorizados e têm saúde e moradia precárias. Ou seja, as dificuldades de trabalho, saúde, moradia, educação e lazer são praticamente as mesmas que o bisavô de um jovem negro de hoje, sofria no início do século XX.

Segundo um dos coordenadores de pesquisa do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), Ricardo Henriques, em 13 anos, os brancos devem alcançar uma média de oito anos de estudos, porém os negros só alcançarão o mesmo índice daqui a 32 anos. O Brasil melhorou o seu desempenho em uma série de indicadores sociais na década de 90, mas não foi capaz de fazer com que a desigualdade entre negros, índios e brancos diminuísse.

Em relação à educação, muitas pesquisas recentes confirmam que acesso e permanência bem sucedida na escola variam de acordo com a raça/etnia dos alunos sendo que o prejuízo maior é dos descendentes da população negra e indígena.

Diante desse quadro histórico que atravessa mais de quatro séculos, as políticas de ações afirmativas ganharam relevância na sociedade brasileira nos últimos anos. A demanda por ações reparatórias exige que o Estado e a sociedade tomem medidas para ressarcir os afro-brasileiros dos danos psicológicos, materiais, sociais, políticos e educacionais sofridos desde o período escravista.

A exigência de tais políticas faz parte da luta do Movimento Negro no Brasil, e tem por objetivo eliminar desigualdades historicamente acumuladas.

A superação e transformação da educação dos afro brasileiros e indígenas não se alcançará apenas com a sensibilidade e boa vontade dos responsáveis pela educação. Transformar o sujeito social descendente de africanos em identidade portadora de história e cultura positivamente reconhecidas, requer que, coletivamente, estejamos produzindo um novo imaginário, em todas as dimensões da vida social, que dê conta da multiplicidade e complexidade que esse tema exige no contexto racista brasileiro. Isso é o que prescreve a Lei 10.639/03: é preciso reconhecer, valorizar e ensinar a cultura africana, pois ela constitui um dos núcleos mais poderosos da vida da nação.

Neste sentido, pensando no desafio que cotidianamente temos que enfrentar em nossas escolas, torna-se interessante incentivar a recuperação das memórias locais e regionais, a inserção investigativa de professores e outros agentes sociais no cotidiano cultural de matriz africana na região. Através da vivência de projetos experimentais que promovam reflexões científicas sobre o fazer pedagógico e da produção de materiais didáticos, colaboramos com o movimento de transformação da educação de afro-brasileiros.

Acima de tudo, investimos na possibilidade de repensar sobre nós mesmos, como sujeitos de ações reprodutoras do imaginário negativo e estereotipado que cristalizamos a partir de nosso passado escravista. Além dos estudos e pesquisas sobre temas e conhecimentos diversificados que precisamos incorporar ao nosso saber e aos currículos escolares, realizamos também a reflexão crítica das nossas práticas pedagógicas. Esse esforço cognitivo-afetivo leva ao planejamento do “que fazer” na educação, nos espaços formais e não-formais.

Faz-se necessário a elaboração de projetos ou planos de ações, baseados no enfoque multiculturalista e na diversidade cultural, para uma formação mais democrática e igualitária de nossas crianças e jovens, brancos e não brancos.

Vera Regina da Silva - Licenciada em Pedagogia, licenciada em Letras e Espanhol e pós-graduada em Educação Especial, interdisciplinaridade, supervisão escolar.