Certa vez, num ponto de ônibus, uma senhora soube que eu era psicólogo e resolveu me contar sobre o filho. Falou do quanto desejou aquela criança, das rezas, das tentativas, da emoção que transbordou quando a gravidez chegou. O marido ficou irradiante. O menino encheu a casa de alegria. A família ia à igreja toda semana, unidos, e ela sentia um orgulho imenso de vê-lo ao seu lado na casa do Senhor. Era o filho que ela pediu. Era a família que ela sonhou.
Então ele cresceu. E não quis mais ir à igreja.
O que veio depois foram brigas. Proibições. Gritos. Ultimatos dados em nome de Deus. E, aos poucos, o filho que ela rezou tanto para ter foi se tornando um estranho dentro da própria casa. O amor que havia construído aquela família foi substituído por mágoa, distância e ressentimento.
Em quinze anos de clínica, ouvi variações dessa história mais vezes do que gostaria. Pais que se afastaram de filhos, irmãos que se tornaram inimigos, casais que trocaram a intimidade pelo julgamento mútuo, tudo sustentado pela mesma justificativa: a vontade de Deus.
Há uma diferença fundamental entre fé e controle. A fé liberta, acolhe, cria vínculo. O controle oprime, afasta, produz ressentimento. Quando a religião se torna instrumento de imposição dentro de casa, ela deixa de ser caminho espiritual e passa a ser ferramenta de poder. E poder exercido sobre quem amamos não é amor, é dominação com nome bonito.
O que aquela mãe não conseguia ver é que, na tentativa de salvar a alma do filho, ela o estava perdendo. E filhos perdidos dentro de casa carregam feridas que nenhum sermão consegue curar. O ódio não nasce do nada, ele nasce onde o amor foi substituído pela imposição.
Famílias não se destroem por falta de fé. Destroem-se por falta de escuta, de respeito, de espaço para que o outro exista como é. Deus, em qualquer tradição que o nomeie com seriedade, não pede que destruamos vínculos em seu nome.
Por isso, se a sua família está se desfazendo em nome de uma crença, pare e pergunte: o que estou colocando acima do amor? Estou usando a fé para me aproximar ou para me impor? Que memória estou construindo, a de alguém que amou ou a de alguém que sufocou? O que aquele filho, aquela filha, aquele cônjuge sente quando me olha hoje?
Feridas abertas dentro de casa demoram a cicatrizar. Algumas, jamais cicatrizam. Deus é amor. E ao contrário disso, DESCONFIE.




