Na série especial de reportagens em comemoração aos 30 anos do Diário da Serra, que resgata histórias de profissionais que fizeram parte da trajetória do jornal, o destaque desta vez é Nelson Alves. Em sua passagem pela redação, viveu de perto a rotina intensa do jornalismo diário, atuando na revisão, definição de pautas, fechamento das edições e até mesmo como repórter. Para ele, a experiência foi um divisor de águas em sua trajetória profissional e pessoal.
A história de Nelson Alves com o Diário da Serra começou em 2002, quando ele trabalhava na Prefeitura de Nova Olímpia e recebeu o convite para atuar no jornal. A oportunidade surgiu em um momento de mudanças na vida profissional e acadêmica de Nelson, que havia sido aprovado no curso de Direito e decidiu se mudar para Tangará da Serra.
Na época, Nelson já tinha experiência com imprensa, no entanto, a experiência no Diário da Serra representava um novo desafio: pela primeira vez, ele passaria a vivenciar a rotina de um jornal diário.
“Eu fazia faculdade de manhã e a partir do meio-dia ia para o jornal e só saía de lá quando o jornal era fechado, ou seja, quando ele ia para a gráfica. Acompanhava a revisão, quando precisava fazer reportagem, acompanhava a diagramação com os meninos que lá trabalhavam. E foi assim”,
relembra.
“Posso dizer que foi um divisor de águas para mim, porque já havia trabalhado em jornais (...), mas só que eu não tinha participado ainda da correria do jornal diário, dessa coisa bacana, gostosa, que é, como eu diria, matar um leão por dia. Porque nem sempre as notícias acontecem da forma que a gente quer ou suficiente para fechar uma edição, seja de quantas páginas for”.
Outro desafio daquela época, segundo Nelson, era a concorrência com rádio e televisão.
“Nem sempre tínhamos as fontes que, normalmente, privilegiavam alguns veículos. E, para dar um furo de reportagem, era quase impossível”.
Foi nesse cenário que Nelson viveu uma das situações que considera marcantes e também uma das experiências que prefere lembrar como aprendizado. Na busca pelo ‘furo de reportagem’, uma informação sobre a posse de Valter Locatelli na presidência da Subseção da OAB acabou sendo publicada com a data incorreta.
“E, de manhã, quando cheguei na faculdade, eu só ouvia os comentários nos corredores e aquilo acabou comigo”.
O episódio foi corrigido posteriormente por meio de uma errata e acabou se transformando em uma lembrança sobre a responsabilidade e também sobre os erros que podem ocorrer na correria da produção jornalística.
“Quem é que nunca errou? Não me orgulho disso, mas foi uma passagem que depois a gente vê que a correria do dia a dia nos leva a erros”.
Depois do período de afastamento da Prefeitura, Nelson decidiu retornar ao trabalho em Nova Olímpia. A distância, porém, não encerrou sua relação com o Diário da Serra. Durante anos, continuou colaborando com o jornal, especialmente quando atuou em assessorias da Câmara e da Prefeitura.
“E até hoje, se precisar, se tiver alguma coisa, eles sabem que podem me ligar e estou aqui para atendê-los”.
Além da trajetória profissional, Nelson conta que nos últimos anos passou a se dedicar ao estudo da cachaça, reunindo uma coleção que hoje soma aproximadamente mil rótulos de diferentes estados e municípios de Mato Grosso.
Encarte especial, uma madrugada no jornal e uma história que Nelson Alves leva até hoje
Nelson estudava no período da manhã e a tarde/noite trabalhava no DS
Entre as lembranças que Nelson Alves guarda da passagem pelo Diário da Serra, uma das mais marcantes envolve a criação do encarte semanal Tá Na Mão. Criado por Mano Reski, o material circulava aos sábados e teve sua primeira edição produzida em um período de equipe reduzida na redação.
“E estava na minha mão, fazendo trocadilho, a primeira edição”.
Naquele período, Nelson e a repórter Caleci enfrentavam uma rotina pesada. A equipe reduzida fazia com que muitas pautas acabassem concentradas nos poucos profissionais disponíveis.
“Teve um período em que só estava eu e a Caleci. Então, imagina, a Caleci era uma repórter que cursava Letras e tinha uma hora para chegar na faculdade e nem sempre ela conseguia fazer a cobertura de todas as pautas. E aí acabava sobrando para mim. Foi uma época difícil”.
Foi justamente em meio a essa rotina intensa que surgiu uma reportagem especial sobre os 15 anos da Apae de Tangará da Serra. Nelson foi encarregado de produzir o material e, durante a apuração, viveu uma experiência que o marcou profundamente.
“Fui lá para a Apae e entrevistei a diretora, alguns professores, salvo engano, e ela me levou à sala para conhecer uma criança especial. (...) Ela não possuía os braços e fazia todas as atividades, escrevia, desenhava com os pés. E aquilo me tocou bastante, mexeu comigo, mexeu muito comigo aquela cena”.
Retornando à redação, a reportagem precisava ser produzida depois do fechamento da edição de quinta-feira para ser diagramada e circular no sábado como parte do novo encarte. Porém, naquela noite, uma queda de energia interrompeu o trabalho na redação e atrasou ainda mais a produção.
Quando o jornal finalmente foi fechado, Nelson voltou ao computador para escrever a reportagem.
“E, da forma que terminamos ali, que o jornal foi para a gráfica, voltei para o computador e comecei a escrever a matéria. E, tomando café, depois, quando acabou o café, era Coca Cola”.
O texto foi concluído por volta das 5 horas da manhã.
“Quando terminei a matéria, acabei ainda fazendo mais algumas coisinhas ali para adiantar o processo. E, quando a menina que fazia a limpeza do jornal chegou, eu ainda estava lá. Tomei um café com ela, voltei para casa e fui para a faculdade. É claro que eu não ia conseguir estudar”.
Nelson voltou ao jornal para acompanhar a produção do Tá Na Mão.
“Eu estava muito empolgado com aquilo. E, quando o menino da diagramação chegou, eu sentei ao lado dele e começamos a definir qual era a matéria, quais as páginas que iam, as fotos e coisas assim. Eu só sei que no outro dia acordei no hospital. Eu tive um ataque”.
Segundo ele, posteriormente foi informado de que havia convulsionado. Bombeiros foram acionados e ele foi levado ao hospital.
“Quando eu acordei, o Mano estava lá e eu queria saber da revista. (...) Ele me tranquilizou e estava tudo certo”.
Após receber alta, Nelson permaneceu alguns dias na casa do Mano e Silvana Tormes antes de retornar para sua rotina.
“Fiquei uns dois, três dias na casa do Mano, da dona Silvana, e depois voltei para o meu cantinho. Essa é uma passagem que lembro, e, graças a Deus, não ficou sequela, e estou até aqui hoje”.









