Há textos que nos atravessam. Este, de Paula Jácome, é um deles. Cada vez que o leio, meu coração se aperta. Mais ainda quando olho para minha filha crescendo diante dos meus olhos. O texto fala sobre o tempo — esse ladrão silencioso que nos rouba, sem pedir licença, as fases mais preciosas da infância.

Um dia, de repente, nossos filhos param de nos chamar para dar o beijo antes de dormir. Param de pedir ajuda para o banho, começam a preparar o próprio café, a estudar sozinhos, a resolver pequenos problemas sem nos chamar. E tudo isso chega sem aviso. A infância não toca a campainha para se despedir. Ela simplesmente vai embora, deixando em seu lugar a saudade.

Enquanto leio essas palavras, percebo o quanto precisamos aproveitar o amor de pertinho. Porque, na correria da vida, esquecemos que o barulho, a desobediência, a cama apertada e os brinquedos espalhados fazem parte da fase mais bonita e passageira de todas: a infância. Hoje reclamamos do cansaço, do trabalho de ninar, das tarefas escolares, do excesso de energia deles. Mas um dia, vamos sentir falta de tudo isso. Vamos sentir falta até mesmo do que hoje nos cansa.

E o coração vai apertar. Vai apertar porque vamos perceber que eles cresceram. Que não cabem mais no colo, apenas no coração. Vamos chorar ao lembrar do cheirinho depois do banho, do bilhete da escola, do pedido inocente para dormir no meio da cama. E, ainda assim, vamos sorrir, porque veremos que tudo o que fizemos valeu a pena.

Por isso, o convite que este texto nos faz é simples e profundo: aproveite. Aproveite o amor de pertinho, mesmo quando o corpo pede descanso e a rotina grita por pressa. Aproveite cada abraço, cada risada, cada “papai” ou “mamãe” repetido mil vezes ao dia. Porque chega uma hora em que o beijo de boa-noite não vem, e a cama fica grande demais.

E talvez esse seja o maior aprendizado da paternidade e da maternidade: compreender que o tempo não volta, mas o amor que oferecemos hoje se transforma em raízes que acompanharão nossos filhos por toda a vida. Porque, quando eles não couberem mais no nosso colo, caberão inteiros na nossa memória e no nosso coração — e é isso que dará sentido a cada sacrifício, a cada noite mal dormida e a cada instante que escolhemos estar presentes.

Euller Sacramento – Psicólogo Clínico
Instagram: @eullersacramento