Neste fim de semana, Cuiabá recebeu o show do Guns N’ Roses. E enquanto o público vibrava com a energia, havia algo além da música acontecendo diante dos olhos: o tempo também estava em cena. Axl Rose, Slash e os demais músicos carregavam no corpo e no rosto as marcas de décadas de estrada.

O que se viu nas redes sociais foram comparações entre o “antes e o agora”, fotos lado a lado mostrando o quanto eles envelheceram. E eu fiquei pensando: por que o envelhecer causa tanto incômodo? Por que ainda é tão difícil olhar para o tempo com ternura, e não com medo?

Envelhecer parece algo que queremos esconder, adiar, silenciar. Como se cada ruga fosse um erro e cada fio branco um lembrete incômodo de que a vida está passando. Talvez seja porque, lá no fundo, confundimos envelhecer com deixar de ser. Queremos continuar jovens, fortes, desejados e produtivos. Queremos congelar o tempo e ele, teimoso, insiste em nos mover.

Mas o que esquecemos é que o envelhecer não é o oposto da vida, é o seu testemunho. Cada marca, cada mudança, é a prova de que sobrevivemos. E há algo profundamente belo nisso. Assim como o som do Guns hoje não é o mesmo dos anos 80, nós também não somos os mesmos. E ainda bem. A beleza está justamente em continuar, mesmo com o corpo diferente, com a voz mais rouca, mas com o mesmo brilho nos olhos de quem ainda tem algo a oferecer.

Assistir artistas envelhecendo no palco é, de certo modo, um espelho. Nos lembra que o tempo não poupa ninguém e tudo bem. Porque há um tipo de beleza que só o tempo sabe dar: a da presença serena, da sabedoria, do amor amadurecido, da coragem de continuar sendo quem se é, sem precisar provar nada.

Talvez o desconforto com o envelhecimento venha de uma tentativa desesperada de segurar o passado. Mas a juventude, por mais intensa que seja, é só um capítulo. A vida é feita de muitos. E negar o envelhecer é negar a própria história.

O tempo, como uma boa canção, não precisa ser interrompido, precisa ser ouvido com o coração. Que a gente aprenda a aceitar o ritmo da vida como quem ouve uma melodia antiga: diferente, mas ainda linda.

Porque no fim, o que realmente importa não é se o corpo mudou, se a voz já não alcança as notas de antes. O que importa é continuar no palco da vida, com o mesmo amor, com a mesma entrega, com o mesmo desejo de estar, mesmo que o tempo já tenha mudado o tom.

Euller Sacramento é Psicólogo Clínico
Instagram: @eullersacramento