"Há quatro anos e 10 meses Isabela Ledur matou meu filho. E ontem [dia 23] o juiz Marcos Faleiros, com a sentença dele, tornou a matar Rodrigo", desabafa Jane Claro sobre o julgamento da tenente Ledur, que era acusada de torturar e provocar a morte de seu filho Rodrigo Claro.

Ela se mostra inconformada com o fato do julgamento ter alterado o crime de tortura para maus tratos, abrandando a punição. Após a alteração, o Conselho Especial de Justiça Militar condenou a ré a 1 ano de prisão a ser cumprida em regime aberto. Rodrigo Claro morreu em novembro de 2016, após participar de treinamento aquático na Lagoa Trevisan, em Cuiabá.

Em audiência remota, Faleiros afirmou que Ledur não perde o seu posto ou a sua patente. No entendimento do juiz Marcos Faleiros, não houve tortura, conforme apontado pelo Ministério Público Estadual (MPE). Entendimento foi seguido pelos majores Paulo César Vieira de Melo Junior e Ludmila de Souza Eickhoff.

"É por isso que ela batia no peito afirmando que a justiça jamais a atingiria. E isso foi comprovado ontem! Estou arrasada. Ela ganhou carta branca para fazer com com outros o que fez com meu filho", afirmou.

Para o juiz, Rodrigo foi submetido a excesso de caldos e outras agressões por não conseguir nadar corretamente e cumprir a travessia no lago. Por isso, dentro de critérios educacionais que considerou “equivocados”, de acordo com ele, a tenente tinha o intuito de instruir o aluno e não de fazê-lo sofrer.

Jane disse que ainda está digerindo "o teatro com atores despreparados" que participaram da audiência nesta quinta.

"Fiquei parada em estado de choque. Voltei para o hotel para digerir tudo isso. Foi algo que ninguém esperava. Não consegui nem dormir. Estou arrasada. Meus filhos estão do mesmo jeito. Nada aconteceu. A nossa luta foi em vão", lamenta.

A mãe do aluno ainda lembrou quantos oficiais foram exonerados e mandados embora da coorporação por crimes bem inferiores e reclama que Ledur vai continuar atuando no Corpo de Bombeiros.

"Não dá para entender. Não consigo intender. Nem sei como explicar para os meus filhos, que acreditavam na Justiça, que não funcionou",afirmou.

Sobre recorrer da decisão, Jane ainda não decidiu.

Argumentos

O Ministério Público do Estado (MPE), representado pelo promotor de Justiça Paulo Henrique Amaral Motta, defendeu que os caldos e afogamentos teriam o intuito de castigar Rodrigo pelo fato de ele não ter apresentado desempenho excelente nas aulas aquáticas.

Já a defesa de Ledur, feita pelo advogado Huendel Rolim, sustentou que afogamentos são necessários para formar bons profissionais para compor o quadro do Corpo de Bombeiros. De acordo com ele, a tenente era rígida com o intuito de educar e a pressão é inerente à profissão militar.

Caso Rodrigo

Rodrigo morreu em novembro de 2016, durante treinamento de atividades aquáticas, na Lagoa Trevisan, em Cuiabá. Após sair do treinamento, ele buscou atendimento médico e foi internado em um hospital, onde não resistiu e morreu.

Consta na denúncia do MPE que os problemas de Rodrigo durante as atividades aquáticas chamavam a atenção de todos, mas os responsáveis pelo treinamento utilizaram de métodos considerados reprováveis para castigar os alunos do curso. Rodrigo teria sido submetido a intenso sofrimento físico e mental com uso de violência.