Um pernambucano que prosperou em uma cidade em descoberta

Aos 15 dias do mês de dezembro 1944 nascia Manoel Ferreira de Andrade em Pernambuco, filho de José Ferreira de Andrade e Josefa Quitéria da Conceição.

Manoel nasceu depois de José, Maria Josefa, Maria, Gecina e Marina, sendo ele, o caçula. Os pais eram lavradores, e ele, assim como os irmãos, foi criado com muita humildade e muito trabalho, e desde muito cedo aprenderam a lavorar a terra.

Depois de um assalto ao sítio aonde residia a família, sendo o pai inclusive maltratado pelos assaltantes, decidem se mudar para São Paulo, cidade que já residia o filho mais velho, que saiu de casa logo cedo.

“Fomos para São Paulo de ‘pau de arara’ e como ele era o menor, vinha embaixo do banco”,

conta a irmã, Maria Josefa, sorrindo.

Nessa viagem, várias outras famílias também viajaram dividindo o caminhão.

Chegaram na nova moradia em época de frio intenso, que a família inteira estranhou bastante. Ali foram para a fazenda de um senhor, cataram algodão por aproximadamente um ano. Após esse período, a família mudou-se para Presidente Prudente.

Na nova cidade Manoel continuou a estudar, mas foi somente até a 4ª Série do ensino fundamental. Mas, ele já demonstrava aptidão para os negócios.

“Ele me contava que saía para a escola, mas não ia [risos]. Ele era peralta, matava aulas para catar sementes, pegar esterco e vender, e também para cuidar do jardim de uma senhora e ganhar seu dinheirinho”,

lembra a esposa Ana Maria Monteiro de Andrade, a Dona Ana.

Um tempo depois, a família se mudou para Ouro Verde, próximo a São Bernardo, onde Manoel arrendou terras e trabalhava para cuidar dos pais, porque todos haviam se casado, ficando somente ele, o caçula.

O pai adoeceu e infelizmente faleceu. Com isso, ele e a mãe voltam para Prudente, e nessa época trabalhava viajando como vendedor de produtos para uma empresa.

Com um olhar forte para os negócios, apesar do pouco estudo, abriu seu próprio negócio, um bolicho na Vila Glória. O negócio prosperou rapidamente, proporcionando assim, a possibilidade de comprar um imóvel e abrir o primeiro mercadinho.

Ali conhece a primeira esposa, Maria Desolina, com quem se casou com aproximadamente 20 anos. Com ela teve quatro filhos. O primeiro deles natimorto, mas logo em seguida veio Meire Selma Andrade Neves e depois Emerson Adriano Andrade. Mas, infelizmente, com 30 anos, Desolina não sobreviveu ao parto do quarto filho, que também morreu. e falece de embolia pulmonar, em 1977.

A vida seguia seu curso no bairro aonde Manoel e Ana viviam. Isso mesmo, Ana era moradora do bairro e vendedora de calçados em uma loja próxima ao mercadinho da família e inclusive, atendia Maria quando ela ia em busca de calçados.

“Eu trabalhava na loja e lembro que ela foi comprar um calçado e o pé dela estava bastante inchado. Dias depois veio a notícia triste que deixou todo mundo desnorteado. Foi uma tragédia. Era até difícil de acreditar. Foi um choque para todo mundo”,

conta.

Com o falecimento da esposa, Manoel começou a sair. Festeiro que sempre foi, não perdia uma festa. Certo dia, uma amiga que trabalhava com Ana pediu que ela a acompanhasse até o comércio de Manoel para vender uma rifa, mas na verdade a amiga queria juntar a mãe com Manoel, agora viúvo. Ana acompanhou a amiga, e ali Manoel de forma despretensiosa perguntou onde elas iriam no final de semana. Ana disse que visitaria os pais em outra cidade e aproveitaria para ir a uma festa da região.

“Quando eu estava lá ele chegou. Mas isso já tinha quase um ano que a esposa tinha partido. Dançamos a noite toda, a coisa ficou séria e passei uma parte linda e perfeita de minha vida ao lado dele”,

relembra a esposa, que se casou logo em seguida com Manoel. Ela com 23 anos e ele com 33. Há época Meire tinha 6 anos e Emerson, 3.

O encontro com a cidade de sua moradia eterna

O casal continuou tocando o mercadinho em Prudente e as dificuldades se apresentando. José, o irmão que já estava no Mato Grosso, o convidou para vir embora. Combinaram então de conhecer Tangará da Serra.

“Ele veio em 1979. Conheceu, gostou tanto que já alugou uma casa na Avenida Brasil perto da Popular Calçados, onde montou o mercado”,

disse a esposa.

Nessa época, Ana estava grávida de Ricardo Andrade, e ele achou melhor que ela ficasse em Presidente Prudente por causa dos recursos da Saúde aqui que eram precários. O bebê nasceu em 1980 e Manoel voltou para buscar a família.

“Quando chegamos só tinha a Avenida Brasil com casas de madeira. Era aquela rua larga, aquele poeirão, mas eu já amei o lugar. O Ricardo fez um aninho aqui e o mercado que lá era Andrade, aqui era Presidente”,

lembra a companheira.

Como sempre amou pescaria, futebol e festa, ele estava no lugar certo. Logo montou um time de futebol e se tornou demasiadamente conhecido, sendo convidado a ingressar na política, o que não foi bem aceito pela esposa.

Patrocinou diversos times, que levavam toda a família para a beira do campo nos finais de semana, na antiga Chácara do Presidente (hoje Campo do Vasquinho).

Manoel – prefeito e deputado estadual

Na vida política sua trajetória começou em 1986, quando tentou a candidatura a Deputado Estadual pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), mas não conseguiu apoio dos líderes do partido no Estado, razão pela qual fundou o Partido Liberal (PL). Dois anos mais tarde se candidatou a prefeito de Tangará da Serra e elegeu-se prefeito municipal com um vice do PFL, Saturnino Masson. Eles governaram o Município entre 1º de janeiro de 1989 a 31 de dezembro de 1992.

Como prefeito, além de muitos benefícios, ele foi um dos responsáveis pela implantação dos dois maiores frigoríficos de Tangará da Serra e núcleo industrial do Santa Terezinha. Depois deste período, elegeu seu vice Saturnino Masson como prefeito de Tangará e em 1994 se candidatou a Deputado Estadual ainda pelo PL, e assim representou o município na Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso entre os anos de 1995 a 1998.

Neste período, a convite do Governador Dante de Oliveira ele migrou para o PDT, passando a fazer parte da base do Governo. Como deputado, ele foi o ponto fundamental para a criação do Campus da Universidade do Estado de Mato Grosso em Tangará da Serra, pois sua mudança para o PDT, de Dante de Oliveira, ficou condicionada a aquisição do Centro de Ensino Superior de Tangará da Serra – Ensino Superior Privado (CESUT) pela Unemat, com ensino superior público. Esta transferência de mantenedora foi uma conquista de toda a comunidade tangaraense que se uniu em prol de uma universidade pública e de qualidade para atender a região. Outro legado de imenso valor deixado por ele foi a batalha para a implantação da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), sonho da esposa, que teve nele um grande apoiador.

“Ele não era um homem soberbo. Tínhamos uma ligação e relacionamento muito bom. Sempre me ouviu, e fazia do jeito dele mas buscava me ouvir bastante. Ele era muito inteligente, mas ouvia todos e me buscava para resolver as coisas Não tinha isso de ser durão, não”.

Sua vida foi sinônimo de determinação, sabedoria, bondade e calma

Muitas das histórias vividas pelo ex-prefeito foram conhecidas, outras nem tanto, como é o caso dessa.

“Eles foram jogar lá na Água Branca e passaram no Boche num boteco. Ele pegou um pato, e quando chegou em casa colocou dentro da máquina de lavar. Acordei de manhã o pato estava em cima da máquina e eu levei um susto! Ele disse que ia fazer esse pato lá no Salto das Nuvens numa pescaria que eles tinham marcado e assim fez. Mas pagou caro por esse pato porque o dono ficou sabendo e foi lá no supermercado cobrar”,

relatou Dona Ana, rindo lindamente.

Segundo a irmã Maria Josefa e a esposa, que relataram a história de Manoel, dentre as diversas qualidades, sem dúvida, a caridade era um dos destaques, o que ficou comprovado inclusive, ao alimentar pessoas que lhe causaram a maior de todas as dores. Isso porque através do supermercado, matou a fome dos filhos do homem que sequestrou o filho Ricardo. Momento em que demonstrou sua calma, sabedoria e coragem para chegar ao desfecho positivo que trouxe o filho de volta para casa, após cinco dias de cativeiro.

Manoel chegava em Cuiabá quando foi comunicado que o filho havia sido sequestrado a caminho da escola. Retornou e participou de todos os passos das negociações, levando inclusive, o dinheiro ao local designado pelos sequestradores.

As cartas e instruções muitas delas foram feitas através de cartas deixadas nas gôndolas do supermercado com ameaças de que cortariam dedo ou orelha caso o valor não fosse entregue. Ali no mercado os envolvidos faziam as compras das bolachas para levarem para o filho que ficou todo esse tempo no meio do mato, sob chuva e sol.

Homenagem

Manoel foi intenso e amou Tangará da Serra como filho nativo dessa terra. Buscou como pôde melhorar o lugar que escolheu para sua família fincar raízes e sempre estava pronto a servir, mas infelizmente no final do mandato de deputado estadual, passou a ter muitos problemas por causa do Diabetes que o afetou demasiadamente, agravando o sistema cardíaco e vascular, o que lhe fez sofrer muito, com inclusive amputação de um dedo e quase de uma perna, o que foi descartado com socorro rápido.

Mas passou pela prova com todo positivismo e fé, e jamais se entregou a doença que o levou, lutando, aos 73 anos. Partiu no dia 6 de setembro de 2018.

Por tantos trabalhos prestados a Tangará da Serra, teve seu nome lembrado e está eternizado no Anel Viário do município que passa a denominar-se Manoel Ferreira de Andrade.