Há histórias contadas que nos fazem pensar como foi possível suportar tantos reveses da vida. No caso desse homenageado, o primeiro foi perder os pais com seis anos de idade, indo com os seis irmãos morar com avó, vivendo com parentes aqui e ali e indo parar em orfanatos, uma vez que a avó não conseguia manter todos.
Uma infância bastante dolorosa e que foi vivida com muita dificuldade. A história é de fugas e mais fugas dos locais de abrigo porque apanhava muito, chegando a morar na rua, tendo como o mais próximo de um abrigo, construções abandonadas, onde se cobria com sacos de cimento para abrandar o frio de Curitiba, onde morou após se mudar de Rolândia, no estado do Paraná, onde nasceu em 19 de janeiro. Para comer, pedia nos bares e padarias, tendo como companhia um dos irmãos, e juntos vendiam jornais e flores.
Esses são relatos de Letícia Graziella Teixeira Nunes, filha de Alvari Teixeira que teve a vida marcada por tristezas, mas que criou laços de vida por onde passou, graças ao seu coração bondoso.
Alvari foi o quarto filho da família e teve como companhia os irmãos Airton Teixeira, Aristeu Teixeira, Loide Teixeira, Augusta Teixeira, Adilce Teixeira, Dirce Teixeira e Arminda Teixeira, e que aos 16 anos teve uma fagulha de mudança que fez crescer, agarrando com todas as suas forças.
“Meu pai tocava um bar para um moço, lá ele dormia, acordava às cinco da manhã, fazia a limpeza, os salgados, vendia e tomava conta de tudo”,
narra a filha, ao salientar a inteligência do pai, uma vez que não tinha estudo e cursou apenas até o segundo ano em que aprendeu a ler e escrever.
“A gente sempre se admirou porque ele não tinha erros de Português e tinha uma letra desenhada”,
relata, ao pontuar que foi Alvari quem escreveu à mão todos os convites de casamento de seu casamento.
A vida seguiu seu curso e com tino para os negócios, saiu do bar e mudou-se para Londrina-PR, onde abriu uma loja de cosméticos e ali, conheceu Maria de Fátima Marquini, que morava em Umuarama-PR. Aos 17 anos dela e 29 anos dele, fugiram, indo morar em Londrina.
Casado, levou o segundo golpe da vida.
“Ele tinha um sócio que levou tudo que ele tinha dentro da loja”.
Não tendo nem onde morar, o casal se acomodou dentro de uma Kombi que restou.
Mas como o ditado de que “quem tem amigo bom não morre pagão”, um amigo acabou se sensibilizando e acolheu o casal.
Teixeira reuniu forças e se colocou novamente em pé, porque para ele, chão não era o seu lugar.
“Por mais que ele não tinha estudo, ele sempre foi muito abençoado e trabalhou muito, e sempre, se reerguia do nada”,
destaca.
Em Londrina Letícia nasceu, fazendo a família mais feliz. Depois de dois anos da filha, mudaram-se para Cambé-PR e a família da esposa veio para o município e dava um suporte muito grande ao casal.
As andanças que fizeram encontrar sua terra amada
Após alguns anos, iniciou viagens como caminhoneiro, e nessas andanças, conheceu Tangará da Serra. No ano de 1979, muda-se para o município, trazendo o irmão Airton. A esposa e a filha ficaram em Cambé.
Em Tangará abriu uma serraria e ajudou o irmão a abrir um ferro velho. A família, que já contava com mais uma integrante, Vanessa Teixeira, vinha nas férias.
A vida de Alvari passou a se dividir entre Tangará e Cambé, e, numa dessas viagens, tomou o terceiro golpe. O sócio levou tudo e deixou as dívidas para trás, que foram saudadas uma a uma por Alvari, que vendeu o que havia restado, e trabalhou até saldar tudo, e, voltou para Cambé, para junto da família onde continuou os serviços com caminhão.
Passados anos, em 1996, decidiu retornar para Tangará da Serra, aonde veio com toda a família, ficando na casa do irmão.
“Vendemos tudo que tínhamos lá e viemos como retirantes, só com a mala”,
lembra Leticia, ao relatar que depois de dez dias surge um raio de esperança.
“Um senhor ia mudar para o sítio e ia alugar a casa e perguntou se podia deixar os móveis, o que para nós foi muito bom, porque não tínhamos nada”.
O início na política: Caminho que quase lhe custou a vida
No município abriu um ferro velho e começou a se envolver na política local, sendo coordenador de campanha de Manoel Ferreira de Andrade, o Manoel do Presidente, Saturnino Masson e Jaime Muraro.
“Ele coordenou diversas campanhas, inclusive, de candidato de fora da cidade”.
Pelo grande envolvimento, acabou se candidatando a vereador sendo eleito para os mandatos de 1993 a 1996, 1997 a 2000 e de 2001 a 2004. Durante a vereança, por um ano, assumiu no governo de Jaime Muraro a Secretaria Municipal de Infraestrutura de 2001 a 2002.
Em 1998 sofreu um atentado que quase lhe roubou a vida. Estava sentado em um carrinho de cachorro-quente se alimentando, quando foi baleado. O tiro acertou as costas e saiu na boca de Alvari que foi operado e ficou por 15 dias internado, 10 desses na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
“Ele estava deformado, inchou muito que o rosto e o ombro eram de um tamanho só”,
recorda a filha.
“Meu pai entrou andando no hospital”,
conta, ao salientar que o atendimento rápido do Dr. Bandeira, que mesmo sem o material ideal fez de emergência uma traqueostomia para dar vazão ao sangue represado e liberar a respiração, salvando sua vida.
“O Jaime era prefeito e o Miguel Romanhuk secretário de Saúde, e arrumaram o avião, mas não tinha a liberação para voo e nem o piloto, mas o Jaime disse que pagava a multa e buscaram um piloto que estava em um bar porque era noite de sábado”.
Sem iluminação na pista, houve uma junção de amigos que com os veículos iluminaram a pista para o avião decolar, levando Alvari para Cuiabá, onde passou por uma cirurgia que durou seis horas.
O atentado acabou arquivado, sem indícios do atirador.
A tentativa de assassinato foi no segundo mandato e depois do terceiro mandato, até por solicitação da família, abandonou a política e passou a cuidar de seu ferro velho.
Uma caminhada de um coração forte, que marcou passo e perdeu ritmo
Anos depois, descobriu um câncer de próstata que foi dado como curado. Em uma viagem de final de ano a casa dos parentes da esposa, com as filhas e suas famílias, passou mal, tendo como diagnóstico, um início de infarto. Ao retornar fez exames, cateterismo e uma angioplastia, colocando cinco stents.
A partir de então, começou a sentir muitas dores e reclamou às filhas que buscaram apoio médico. Essa foi a época do Covid-19, que deixou locais vazios e pessoas reclusas em suas casas. Em 22 de março, Leticia recebeu uma ligação da Upa, dizendo que o pai havia dado entrada na unidade.
“Falaram que ele estava desidratado, desmaiou e o Samu buscou”,
conta ao dizer que foi informada que logo depois do soro, ele iria para casa.
À noite a dor retornou. No hospital ocorreu uma hemorragia na bexiga, causando intensa dor. Uma cauterização na bexiga acabou dando uma melhora significativa no quadro.
A dor cessou e Alvari começou a ficar inquieto, mas bem. Só que um tempo depois, Letícia notou que a respiração ficou diferente e cansada. O exame apresentou uma disritmia cardíaca e foi levado para a Unidade de Terapia Intensiva apenas por precaução e para estabilização.
“Seria apenas até o outro dia cedo”.
Ao amanhecer, as filhas receberam o chamamento à unidade e foram informadas de que havia tido paradas respiratórias e foi reanimado e necessitava de um cateterismo. Foi levado à sala de cirurgia, onde teve mais paradas, encaminhado novamente à UTI. Mas, infelizmente, as paradas se repetiram e Alvari não retornou mais, partindo no dia 25 de março de 2020, aos 76 anos, deixando um legado de retidão e humildade.
Em reconhecimento ao seu amor e trabalhos prestados por Tangará da Serra, teve o nome escolhido para a Rua 54, localizada no Bairro no Jardim Europa, projetada para ser Avenida, que passa a ser nominada oficialmente como “Avenida Vereador Alvari Teixeira”.




