Minha filha está sentada à mesa da cozinha, séria e pensativa. Eu passo, olho, me aproximo, aperto suas bochechas. Ela abre um sorriso imediato, levanta da cadeira e já quer brincar. Lutinha, sempre. É o nosso código secreto de amor.
Em outro momento, está deitada na cama, concentrada. Passo pelo quarto, vejo o pé descalço para fora da coberta e faço cócegas. Ela dá um pulo, ri alto e diz: “Vamos brincar, pai!”. E corre para me devolver as cócegas, como se o mundo estivesse inteiro ali, naquele gesto.
Estamos andando na rua e, quando vemos um Creta, quem vê primeiro faz cócegas no outro. É como a brincadeira do Fusca, só que nossa. Não importa o que estamos fazendo. Viu, fez. É regra. É riso garantido. É presença.
Esses dias, enquanto a observava dormir, me peguei pensando: como ela é feliz. Não importa o que aconteça, ela está sempre pronta para sorrir, para brincar, para recomeçar. Despreocupada, leve, inteira. Talvez porque saiba, sem precisar pensar, que está protegida.
As crianças nos ensinam, mas só aprendemos quando estamos realmente presentes. Quando paramos de correr por dentro e começamos a observar. Minha filha me ensina a olhar o mundo com mais leveza, a sorrir mais, a aproveitar o tempo de pertinho. Porque daqui a pouco ela não vai se impressionar com coisas simples. O tempo passa, mesmo quando a gente finge que não.
Nós, adultos, vivemos presos ao futuro. Queremos mais: mais dinheiro, mais casa, mais trabalho, mais reconhecimento, mais, mais, mais. E, nessa pressa silenciosa, vamos deixando passar exatamente o que sustenta o presente. O que temos agora. O que está ao alcance das mãos, dos olhos, do afeto.
Esquecemos que o presente não é uma sala de espera para algo melhor. Ele é a própria vida acontecendo. E é com o que temos hoje que moldamos o amanhã, para o bem ou para o mal.
Talvez felicidade não seja ausência de problemas, mas presença de vínculos. Talvez não seja acumular coisas, mas multiplicar momentos. Talvez não seja correr atrás do tempo, mas aprender a caminhar com ele.
Enquanto minha filha ri, brinca, dorme e acorda pronta para viver, ela me ensina algo que nenhuma teoria explica completamente: a vida não pede pressa, pede presença. E, no fim, talvez o que mais importe não seja tudo o que ainda queremos, mas tudo o que já temos e estamos deixando passar.




