Esta semana aconteceu algo que me fez pensar. Alice chegou da escola, como sempre, virada no jiraya. Toda animada, serelepe, falante… No final do dia, nós se arrastando, e ela, só a energia.

— Papai, tem tarefa para fazer.

— Ok, Alice, fazemos pela manhã.

— Mas, papai...

— Alice, fazemos pela manhã.

— Tá bom.

— Mas, papai, tenho que arrumar a mochila.

— Fazemos pela manhã.

— Tá bom.

— Papai, sabe o que aconteceu?

— Hã? Diga.

E lá vem histórias... Tudo isso porque eu pedi para ela tomar banho. É sempre assim, até chegar debaixo do chuveiro é uma novela, mas finalmente foi.

— Pronto, Alice, agora vamos nos organizar para dormir.

— Tá bom, papai.

Deixo ela na sala, já com o espírito do sono (na minha cabeça). De repente, a Alexa toca… E dai-lhe dança (ela gosta muito de dançar). Problemas? Não, de jeito nenhum, a questão é que já era HORA DE DORMIR. Eu, morrendo de cansaço, e a bonita só no samba lá na sala, enquanto eu a esperava no quarto. Ow Céus…
Volto à sala, invoco o espírito da paciência, vou até ela e falo:

— Alice, vamos dormir.

— Tá bom, papai.

Finalmente chegou ao quarto, depois de 200 horas…

— Alice, você escovou os dentes?

— Não, papai, vou lá.

E lá vai a menina que não quer dormir. Volta ao quarto.

— Papai, olha só…

— Alice, vai escovar lá no banheiro para você não se distrair.

Após algum tempo, ela chega ao quarto.

— Ok, agora vamos dormir.

— Papai, deixa eu ler um trecho do livro que peguei na biblioteca da escola (Diário de Ellie).

— Tá bom, Alice, só 5 páginas…

Começou a ler. Resultado: não vi o final da leitura, dormi primeiro que ela. Acordei e ela já estava dormindo, a luz apagada, sei lá como isso aconteceu. Levantei e fui para o meu quarto dormir. Aqui é sempre assim, na hora do banho e a hora de dormir.

No meio da nossa rotina caótica, é fácil esquecer o quanto esses momentos são preciosos. Cada insistência, cada desculpa para ficar acordada mais um pouco, são lembranças que Alice e eu estamos criando juntos.

No cansaço e na correria, há uma dança de amor e paciência que nos une, uma rotina que, apesar de desgastante, é repleta de afeto e pequenas felicidades. E talvez, um dia, quando a casa estiver silenciosa e eu sentir falta dessas noites intermináveis, perceberei que essas são as lembranças que realmente importam.

Afinal, é na bagunça do dia a dia que construímos os laços mais fortes e os momentos mais inesquecíveis.

Euller Sacramento é Psicólogo Clínico
Instagram: @eullersacramento