Essa talvez seja a pergunta de milhões. Se houvesse uma resposta exata para esse questionamento, o pecuarista certamente conseguiria enxergar com mais clareza o futuro que vem se desenhando dentro da porteira. O mercado está impondo novos desafios e, se o produtor não fizer o dever de casa, correrá o risco de tomar decisões cada vez mais distantes da realidade.
No primeiro semestre deste ano, Mato Grosso abateu 3,65 milhões de bovinos, o maior número já registrado para o período. Esse resultado foi puxado principalmente pelo crescimento no abate de machos, enquanto houve redução no abate de fêmeas, indicando uma possível retenção de matrizes e uma mudança no ciclo pecuário. Soma-se a isso a expectativa de uma retomada mais forte das compras pela China e o aumento da procura dos Estados Unidos pela carne bovina brasileira. Esses fatores ajudam a explicar por que a reposição começa a subir antes mesmo de o boi gordo alcançar os valores projetados pelo mercado.
Com isso, o pecuarista se vê diante de dúvidas que fazem parte do seu dia a dia: será que essa conta fecha? Vou conseguir obter lucro comprando o bezerro nesse patamar? Devo vendê-lo como boi magro ou levá-lo até a engorda? E o boi magro nesse valor: ainda fecha a conta no curto prazo?
A verdade é que não existe uma resposta única, pois cada produtor vive uma realidade dentro da porteira diferente da realidade do seu vizinho. O custo de produção muda de uma propriedade para outra. O importante é conhecer esse custo, avaliar o tempo necessário para produzir e buscar eficiência. O mercado não está nas mãos do pecuarista, mas cabe a ele tomar suas decisões e determinar onde pretende chegar.
Ao pensar na recria, o produtor precisa ligar o preço de compra do bezerro ao valor esperado na venda, seja como boi magro ou como boi gordo. Aqui em Mato Grosso, o bezerro está sendo negociado entre R$ 15,50 e R$ 17,00 por quilo, enquanto o boi magro de até 15 arrobas aparece entre R$ 395,00 e R$ 410,00 por arroba. Diante desses valores, não basta comprar o bezerro e esperar que o mercado continue subindo. É necessário definir o peso de entrada, projetar o ganho médio diário (GMD), estabelecer o peso de saída e calcular quanto tempo esse animal permanecerá na propriedade. É essa conta que mostrará se o bezerro comprado hoje poderá se transformar em um boi rentável amanhã.
Na engorda, o cuidado precisa ser ainda maior. Enquanto o boi magro alcança esses valores, o preço de balcão oferecido hoje pelos frigoríficos para o boi gordo em nossa região está próximo de R$ 325,00 por arroba. Isso não significa, por si só, que a operação dará prejuízo, porque estamos falando de animais em fases diferentes e a conta também depende do peso, do rendimento e das arrobas produzidas. Mas mostra como a margem pode ficar apertada quando a reposição sobe antes do animal terminado.
Por isso, é preciso controlar o preço dos insumos, pesquisar os produtos e subprodutos mais viáveis para a alimentação e, quando possível, garantir a compra com antecedência. Conhecendo o custo da diária, o produtor poderá avaliar quantas arrobas precisa produzir e qual deverá ser seu preço mínimo de venda.
Também existem ferramentas para proteger esse preço. Em São Paulo, as referências para outubro chegaram a trabalhar próximas de R$ 375 a R$ 380 por arroba, embora isso não signifique que o mesmo valor chegará a Mato Grosso. As operações de hedge na bolsa e a negociação do boi a termo com o frigorífico podem diminuir a exposição do produtor às mudanças do mercado.
Sozinho, o pecuarista nem sempre possui força para conseguir um bom preço junto ao frigorífico. Com parceiros comerciais e outros produtores, ele pode reunir um volume maior e mais padronizado de animais. Com maior escala e organização, aumentam também as possibilidades de negociação.
Quem vive da pecuária sabe que ela é feita de ciclos. Por isso, o pecuarista precisa manter os pés no chão para tomar suas decisões. Não é possível afirmar hoje, com total segurança, qual será o preço final de venda de um animal. O preço de compra tem sua importância, mas não trabalha sozinho. O tempo de permanência, o ganho de peso, o custo da diária e a forma de comercialização também serão determinantes.
O mercado vai continuar ditando as regras e trazendo desafios, mas o produtor não pode ficar de braços cruzados. O maior risco na pecuária atual não está apenas em pagar caro pelo bezerro, mas em comprá-lo sem colocar na ponta do lápis o custo de produção. Afinal, a margem de amanhã depende do dever de casa feito hoje.
Luiz Henrique A. Carvalho - Administração em Agronegócios pela Unemat de Tangará.