Na semana passada, escrevi que bater não é educar, mas descontar raiva. O texto gerou repercussão e uma leitora me enviou um desabafo. Contou que apanhou muito na infância, criada numa fazenda por uma mãe exausta e provedora, lidando com um pai omisso. Por se considerar uma criança “arteira”, ela apanhava excessivamente. E me fez as perguntas que muitos pais fazem em silêncio: se não batermos hoje, a vida não baterá mais forte depois? Os traumas não são necessários para formar uma consciência adulta?
Na clínica, ouço frequentemente o discurso do “eu apanhei e sobrevivi”. Por trás dessa defesa apaixonada da palmada, existe uma lealdade cega e desesperada aos nossos pais. Para uma criança, constatar que seus cuidadores estão descontrolados é aterrorizante. É o colapso do seu mundo seguro. Diante disso, a mente infantil elabora um truque de sobrevivência e inverte a culpa. A criança passa a acreditar que apanhou porque merecia.
Salvamos a imagem dos pais ao custo da nossa própria integridade. Transformamos o descontrole de um adulto, no limite do seu esgotamento, em um suposto método pedagógico. E defendemos essa narrativa porque a alternativa dói demais: exige admitir que fomos feridos por quem deveria nos proteger e que nossos pais eram apenas humanos falhos.
No entanto, a leitora tem razão em um ponto central: toda criança precisa de limites. Sem limite, o que se constrói é o caos. O erro mora na ideia de que a fronteira do limite só se estabelece através da dor física, confundindo a Lei que organiza com a violência que descarrega.
Pensem no mundo adulto. No trabalho, existem regras claras. Quem quebra um contrato, sofre consequências reais. Mas em nenhuma instituição o corpo entra como ferramenta pedagógica. Nenhum chefe pode bater num funcionário que errou, pois a violência ali é crime. E as pessoas aprendem do mesmo jeito. SE A AUSÊNCIA DE VIOLÊNCIA FORMA ADULTOS RESPONSÁVEIS, POR QUE SÓ NA INFÂNCIA ELA VIRARIA REQUISITO?
Romantizar a agressão para poupar quem nos criou perpetua a violência. Quebramos essa repetição não ao acusar nossos pais, que muitas vezes fizeram o que puderam diante da própria exaustão, mas ao assumir que o que nos fez sobreviver não precisa ser o que escolhemos repetir.


Euller Sacramento | Psicólogo Clínico
Site: eullersacramento.com.br