Esses dias estava conversando com um grande amigo, daqueles que conhecemos na universidade e carregamos pela vida. Olhei para ele e soltei:

— Rapaz, quando entramos na universidade você tinha 18 e eu 19 anos, hoje já estamos perto dos 40. A vida está passando, ela não para. Minha filha já tem 8 anos... precisamos viver, pois o tempo está passando.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos, como quem revisita memórias guardadas em algum canto da mente, e respondeu com aquele olhar de quem descobriu algo importante:

— Se naquela época eu tivesse a cabeça que tenho hoje, seria tudo diferente.

Sorri e perguntei:

— Será? E quando você tiver 60 ou 70 anos, vai falar a mesma coisa: “se naquela época em que conversávamos eu tivesse a cabeça que tenho hoje, seria diferente”.

Ficamos ali, dois amigos contemplando o tempo que não volta mais. O café esfriou na xícara enquanto conversávamos. Pensei em quantas vezes já me peguei nesse mesmo pensamento, imaginando como seria se pudesse voltar com o conhecimento de hoje.

A questão é que só vivemos o PRESENTE. O passado já foi, serve apenas para nos lembrar de alguns erros e acertos. O futuro é incerto, não temos garantia de nada, apenas planos e metas, sem possibilidade de certeza.

Quantas vezes deixamos de viver o AGORA pensando no que poderia ter sido ou no que ainda será? Enquanto isso, a vida — essa coisa preciosa e finita — escorre entre nossos dedos como água.

Minha filha me ensina isso todos os dias. Quando brincamos no quintal, ela não está preocupada com o que aconteceu ontem ou com o que faremos amanhã. Ela está TOTALMENTE presente naquele momento, rindo, correndo, vivendo cada segundo com uma intensidade que nós, adultos, esquecemos como fazer.

Talvez a verdadeira sabedoria não esteja em imaginar como aplicaríamos nosso conhecimento atual no passado, mas em usar esse conhecimento para viver plenamente o único momento que realmente existe: o AGORA.

O relógio não para, as estações mudam, os cabelos embranquecem. Não podemos controlar o tempo, mas podemos escolher como vivê-lo. Cada abraço não dado, cada palavra não dita, cada momento adiado é uma parte da vida que se perde para sempre.

Nossos filhos crescem diante dos nossos olhos enquanto estamos ocupados planejando o futuro ou lamentando o passado. A verdadeira sabedoria talvez esteja em perceber que a vida acontece nas pequenas coisas.

Euller Sacramento é psicólogo clínico.
Insta: @eullersacramento