Cheguei em casa esta semana carregando o peso de um dia longo. Minha filha não perguntou nada. Veio correndo e me abraçou, apertado, em silêncio. Foram poucos segundos, mas, sem uma palavra, senti o corpo inteiro desarmar, como se alguém soltasse um nó que eu nem sabia que carregava.

Antes de aprender qualquer palavra, o bebê conhece o abraço. É o primeiro idioma. Nos braços de quem cuida, ele descobre que o mundo é um lugar onde se pode descansar. Ninguém explica isso a ele. O corpo entende: estou seguro, alguém me sustenta, posso existir.

Na clínica, vejo o que acontece quando esse idioma falta. Adultos que sabem falar de tudo, menos do que sentem. Pessoas que ficaram fortes demais cedo, porque ninguém as segurou quando precisavam. Aprendem a se virar sozinhas, mas carregam uma fome silenciosa que nenhuma conquista preenche.

O abraço não resolve o problema. Mas diz à pessoa que ela não está sozinha dentro dele.

Quem foi bem segurado na infância aprende, mais tarde, a se segurar sozinho nas tempestades. O abraço recebido vira calma por dentro, uma voz que diz que vai passar. Por isso ele funciona onde as palavras falham. Diante da dor de alguém, procuramos a frase certa, e muitas vezes ela não existe. O abraço não precisa de frase. Sustenta sem exigir que a dor se explique. Quem é abraçado não precisa provar que sofre para ser acolhido.

E, no entanto, abraçamos cada vez menos. Vivemos conectados a telas e distantes dos corpos. Mandamos “estou com você” por mensagem, mas quase não oferecemos o peito. Adolescentes se afastam, adultos se endurecem, idosos esperam. Muita gente passa dias sem ser tocada com afeto por ninguém.

HÁ DORES QUE SÓ PASSAM QUANDO ALGUÉM NOS SEGURA.

Precisar de abraço não é fraqueza, é humanidade, e nenhuma idade nos livra disso. E quem abraça também se cura, porque lembra que ainda tem algo a oferecer ao outro, mesmo cansado.

Talvez, hoje, alguém perto de você esteja esperando só isso: um filho que endureceu, um pai que não sabe pedir, um amigo que diz que está bem. Sem conselho, sem solução, sem discurso. Talvez, no fim da vida, não levemos as conquistas, mas os braços que nos receberam quando tudo desmoronava. E os braços que fomos para alguém, sem pedir nada em troca.

Quem na sua vida espera por um abraço que você ainda não deu? E qual abraço você mesmo anda precisando e não teve coragem de pedir?


Euller Sacramento |

Psicólogo Clínico

Site: eullersacramento.com.br