Meu trabalho é acolher o sofrimento. Onde ele existe, existe espaço para mim como psicólogo. Ao longo dos anos, tenho acolhido um sofrimento que se repete demais: gente que sofre porque sua religião não é aceita em casa, sua orientação sexual não é tolerada pela família, sua opinião política virou guerra à mesa do jantar. Já atendi quem foi agredido em casa por discordar dos pais, e quem foi expulso por não viver como eles esperavam.
O que mais me marca nesses relatos não é apenas a dor de quem é rejeitado, mas a fúria de quem rejeita. Discordância deveria gerar, no máximo, desconforto. Em muitas famílias, ela gera violência.
Por que a diferença do outro, principalmente de quem amamos, nos incomoda tanto?
Quando colocamos um filho no mundo, carregamos, sem perceber, uma expectativa de continuidade. Todo filho nasce primeiro na fantasia dos pais. Esperamos que ele pense como nós, acredite no que acreditamos, seja uma extensão das nossas certezas. Essa expectativa nunca foi combinada, mas existe, silenciosa, em quase todo lar. Enquanto o filho confirma a expectativa, a relação é tranquila. Quando ele se revela diferente, entra em jogo algo mais profundo: para que o filho real exista e tenha espaço na família, o filho idealizado precisa morrer.
O filho que pensa diferente não ameaça só a crença dos pais. Ameaça a ilusão de que eles sabem quem o filho é.
Muitas vezes, a intolerância não nasce de convicção forte, nasce de insegurança. Quem tem certeza genuína do que acredita costuma ouvir quem pensa diferente sem se sentir ameaçado. Quem reage com violência defende algo frágil dentro de si, uma identidade que depende da concordância do outro para se manter em pé.
A violência, nesses casos, não corrige o filho. Expulsa qualquer chance de diálogo, e com ela, a possibilidade de ele ser visto como é.
Vejo, na clínica, que o maior sofrimento de quem foi rejeitado não é a discordância em si, é a mensagem gravada: eu só seria amado se fosse diferente de quem sou.
Amor que exige semelhança não é amor, é condição.
Ninguém nasce pedindo que a família concorde com tudo que pensa. Mas toda pessoa precisa de um lugar onde possa existir sem se esconder. Quando esse lugar vira palco de julgamento, a pessoa aprende cedo que ser quem é tem um preço alto demais.
Euller Sacramento | Psicólogo Clínico
Site: eullersacramento.com.br







