Ela não estava apresentando o trabalho. Estava ali, assistindo atentamente, sem conseguir controlar as lágrimas que teimavam em cair.
A cena aconteceu enquanto uma acadêmica de enfermagem apresentava sua pesquisa sobre a doença falciforme e o racismo ainda presente na forma como a doença é compreendida e tratada, durante uma Mostra de Pesquisa, Ensino e Extensão universitária.
Ao término da apresentação, enquanto enxugava as lágrimas, a mãe e professora explicou o motivo de sua emoção. Falou da própria filha, uma menina negra que, segundo seu relato, convive diariamente com preconceitos, julgamentos e situações que insistem em lembrá-la de que a cor da pele ainda influencia a forma como é vista por parte da sociedade.
Pouco antes, eu havia assistido a outra apresentação. O tema era educação, democracia e questões étnico-raciais. O trabalho abordava como ainda é limitada a produção que relaciona a educação à sua responsabilidade na construção da democracia para pessoas negras e pardas.
Duas pesquisas distintas, conduzidas por caminhos diferentes, mas atravessadas por uma mesma questão: a experiência da população negra no Brasil.
Naquele instante, percebi que a cena diante de mim talvez representasse uma das funções mais nobres da universidade. Não apenas ensinar, pesquisar ou produzir conhecimento, mas escutar.
A emoção daquela mãe transformou uma apresentação científica em algo maior. De um lado, estavam os dados, os conceitos e as evidências produzidas pela pesquisa. Do outro, uma história de vida marcada por experiências concretas de discriminação. Entre os dois, a universidade cumprindo seu papel de criar pontes entre o conhecimento e a realidade.
Em tempos em que as universidades são frequentemente cobradas por sua utilidade prática e pela capacidade de desenvolver tecnologias, talvez valha lembrar que sua função não se limita à formação de profissionais ou à produção de inovação. A universidade também é espaço de debate público, construção da cidadania e, sobretudo, elaboração das perguntas que a sociedade ainda reluta em enfrentar.
Quando pesquisadores investigam racismo, saúde da população negra, relações étnico-raciais ou doenças como a falciforme, não estão tratando de temas restritos a um grupo específico. Estão discutindo a própria sociedade brasileira.
Talvez uma das maiores armadilhas seja continuar tratando essas pautas como assuntos de “minorias”. A população negra não é minoria no Brasil. Ao contrário, representa a maior parcela da população do país. Quando utilizamos essa expressão, não estamos falando de números, mas de relações históricas de poder, de acesso desigual a direitos e de espaços que ainda permanecem fechados para muitos.
A pesquisadora que apresentou o trabalho sobre educação e questões étnico-raciais relatou ser a única aluna parda do mestrado. Sua pesquisa reforçava essa realidade ao mostrar que os espaços de educação estão longe de refletir as condições existentes. A presença de estudantes negros e pardos tem tensionado historicamente uma educação sustentada por valores eurocêntricos.
Cada pesquisa apresentada, cada projeto de extensão realizado e cada discussão promovida dentro das universidades possui um significado que ultrapassa os limites da formação acadêmica. São oportunidades de tornar visíveis histórias que por muito tempo foram silenciadas e transformar experiências individuais em reflexão coletiva.
A fala daquela mãe foi um lembrete poderoso disso. O racismo não é uma abstração teórica. Não existe apenas nos livros, nos artigos científicos ou nos indicadores. Ele aparece nos olhares, nos estigmas, nas oportunidades negadas e nas barreiras que atravessam a vida cotidiana de milhões de pessoas negras e pardas.
Talvez seja justamente por isso que as universidades tenham um papel essencial na formação e na transformação desta realidade cruel e persistente. Não porque se trate de um tema extraordinário, mas porque ele ainda faz parte da realidade do nosso país.
A maior riqueza da universidade talvez não esteja apenas nas pesquisas apresentadas. Está também na capacidade de fazer com que uma mãe se sinta vista, ouvida e representada.
DANIELA TAFNER - Doutora em enfermagem, professora universitária e especialista em saúde da população negra



