Outro dia, minha esposa me fez uma pergunta simples, mas que atravessou meu coração: “Qual foi a fase que você mais gostou da nossa filha?”

Sem pensar muito, respondi: “A fase em que eu mais brinquei com ela, em que estávamos sempre juntos, andando pelas ruas da cidade.” Ela apenas me olhou em silêncio. E seguimos a vida.

Mas a pergunta ficou dentro de mim. Ecoando. E me fez perceber uma verdade dura: minha filha tem apenas 8 anos… e tanta coisa já mudou. Ela mudou. Eu mudei. O nosso jeito de brincar já não é o mesmo. As risadas vêm com menos frequência. As horas juntos parecem mais curtas. A vida, com suas pressas e obrigações, vai nos engolindo sem pedir licença.

Tenho só uma filha. E logo, muito em breve, ela vai entrar na adolescência. Vai preferir os amigos, os grupos, as conversas ao celular. E eu, talvez, vire apenas o apoio de bastidor. O colo de quando algo dá errado. O motorista da escola. O homem que conserta as coisas de casa. E tudo bem, é assim que a vida é. Mas... dói.

Dói saber que talvez ela não vá mais rir tanto das minhas piadas bobas. Que um presente simples talvez já não acenda os olhos dela como antes. Que as mãos pequenas que hoje ainda seguram as minhas vão, aos poucos, se soltar.

E é por isso que escrevo este texto. Para me lembrar — e talvez te lembrar também — que o hoje é tudo o que temos. Que os problemas, o cansaço, o celular, podem esperar. Mas ela, minha filha, a sua filha, não vai esperar. Ela está crescendo. Todos os dias.

Quero criar memórias boas. Daquelas que aquecem o peito quando a vida esfria. Não quero que o tempo leve o que ainda posso viver. Porque o amanhã é incerto… mas o hoje com ela ainda está aqui. E eu ainda posso escolher.

E quando ela crescer — porque vai crescer — e olhar para trás, quero que encontre em mim um abraço que sempre esteve ali. Quero que ela se lembre do pai que se ajoelhava no chão mesmo cansado, que parava tudo para ouvir um desenho mal contado, que ria alto das histórias dela só para vê-la sorrir mais uma vez. Porque no fim das contas, não são os presentes caros ou os passeios grandiosos que ficam. Ficam os instantes de presença verdadeira, os olhos que se encontram, o tempo que se entrega sem pressa. É isso que constrói a lembrança de um amor que não precisou de palavras para ser inesquecível.

Euller Sacramento é Psicólogo Clínico
Insta: @eullersacramento