06h00: “Se você não colocar essa roupa de astronauta, você não vai pro futebol hoje!”, efeito semana maluca na escola! É mochila, é cabelo, é pais...
Foi o que ouvi, da cozinha, minha esposa dizer ao Théo no quarto, recado: ‘se você não fizer o que eu quero, você não vai ter o que quer!’ Recado dado, não me intrometo sabe.
No caminho para a escola, e claro que o Théo estava de astronauta! (PS. Ele ganhou a roupa da NASA!), a Paty comenta comigo: “Você se lembra, quando ele era pequeno e sempre ia de super-herói pra aula, a gente mandava o uniforme na mochila, e a professora que se virasse pra convencer ele a pôr!”, sorrimos com a lembrança, que hoje é reversa.
Ter filhos mexe com lugares dentro da gente que talvez nunca fossem tocados de outra forma.
No começo, a gente imagina que vai ensinar. Ensinar a andar, falar, escolher, cair e levantar. Imagina que a paternidade é uma espécie de estrada que nós conhecemos e que agora precisamos apenas conduzir alguém por ela.
Até descobrir que não é bem assim. Os filhos também nos ensinam. Eles frustram nossas expectativas, questionam nossas certezas, testam nossa paciência e, muitas vezes, nos obrigam a sair de uma zona de conforto que nem percebíamos existir.
A paternidade vai, aos poucos, diminuindo o tamanho do nosso “eu”.
Porque chega uma hora em que já não basta perguntar: “O que eu quero?”
É preciso perguntar: “Que mundo estou ajudando a construir para eles?”
E talvez essa seja uma das grandes transformações de ser pai: perceber que nossos filhos não vieram para completar a nossa história. Vieram para construir a própria.
Nós somos presença, direção, exemplo e abrigo. Mas não somos donos do caminho.
E isso exige uma difícil combinação: estar perto sem sufocar, orientar sem controlar, proteger sem impedir que eles descubram os próprios limites.
No fundo, criar filhos é também aceitar que parte do nosso trabalho é preparar alguém para não precisar mais de nós da mesma maneira. Ou escolher a própria roupa ou fantasia, sem que a gente fique maluco, só um pouco.
É contraditório.
A gente passa anos ensinando-os a caminhar para um dia, vê-los seguindo por caminhos que não escolhemos.
E talvez seja justamente aí que a paternidade amadureça: quando entendemos que não precisamos deixar filhos à nossa imagem, mas marcas de amor, valores e coragem suficientes para que eles possam ser autenticamente quem são.
Paternidade não é chegar a um destino. É caminhar. Há dias de subida, dias de dúvida, curvas inesperadas, paisagens que encantam e trechos em que a gente só quer parar um pouco para respirar. Ou que nem o céu é mais o limite.
Mas a estrada continua. E talvez essa seja a melhor analogia: ser pai é pegar uma estrada sem fim, na qual cada filho muda a paisagem e também muda quem está dirigindo.
“Astronauta = navegador das estrelas”.
A gente pensa que está levando alguém pela estrada. Até perceber que, na verdade, é a estrada que está levando a gente para um lugar que sozinho jamais conheceríamos.
Amanhã é o cabelo maluco!
Por Lévender Mattos.
Escreve crônicas cotidianas como passatempo – mesmo sem vontade. Relatos humanizados inspirados pelo GET – Gabriel, Enzo e Théo. Criador do projeto e página autoral @paiterapia






