Semana passada, na saída da escola da minha filha, outra mãe se aproximou, disse que lia meus artigos, e emendou, quase sem pausa: “sabe, eu não tenho tempo nem para adoecer direito. Trabalho o dia inteiro, respondo mensagem de madrugada, e ainda me cobro por não render o suficiente.” A fala me deixou pensativo o resto do dia. Não era só ela. É quase todo mundo que vejo, sempre na correria.

A ansiedade que chega até mim não nasce mais de um evento isolado. Nasce de um ritmo. Vivemos numa engrenagem que exige produção constante, resposta imediata, presença permanente. O corpo não descansa porque a mente nunca desliga, e a mente não desliga porque fomos ensinados que parar é fraqueza.

NÃO ESTAMOS APENAS CANSADOS. ESTAMOS SENDO EXPLORADOS PELA PRÓPRIA IDEIA DE PRODUTIVIDADE.

Isso adoece de um jeito silencioso. Ninguém percebe o próprio esgotamento até o corpo dar sinal, insônia, dor no peito, choro sem motivo aparente. Aí a pessoa chega até mim achando que tem algo errado só nela, quando o que está errado é o sistema inteiro que a treinou a valer pelo que produz, não por quem é.

E, ao mesmo tempo em que exigimos mais de nós, nos afastamos uns dos outros. As relações que antes sustentavam, a família reunida, o amigo que aparece sem avisar, foram substituídas por mensagens rápidas e encontros marcados com semanas de antecedência. Cada um cuidando da própria vida, sozinho, atrás de uma tela.

Vejo isso na clínica todos os dias. Pessoas cercadas de contatos e sem ninguém para dividir o peso real. O individualismo não é apenas egoísmo, é também consequência de um mundo que nos ensinou a competir com todo mundo, inclusive com quem amamos.

QUANTO MAIS PRODUZIMOS SOZINHOS, MENOS SABEMOS PEDIR AJUDA JUNTOS.

Não existe solução rápida para isso, e desconfio de quem promete. Mas existe um primeiro movimento possível: desacelerar em pequenas doses. Recusar uma mensagem fora de hora. Sentar para uma conversa sem celular por perto. Perguntar a alguém como ela está, e esperar a resposta de verdade, não o automático “tudo bem”.

Talvez o mundo não vá parar de cobrar. Mas cada pessoa pode escolher, todos os dias, entre alimentar essa engrenagem ou reconstruir, ainda que devagar, algum lugar de descanso e vínculo real.

Quando foi a última vez que você perguntou como alguém estava e realmente ficou para escutar a resposta?

Euller Sacramento | Psicólogo Clínico

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