Outro dia, observei minha filha arrumando a mochila escolar com um zelo incomum. Perguntei o motivo de tanta dedicação. Ela me olhou e respondeu: “Porque a professora merece, papai. Ela cuida de mim e dos meus amigos todos os dias”. Fiquei em silêncio. Aos nove anos, ela havia compreendido o que muitos adultos já esqueceram.

O professor é a primeira autoridade que a criança encontra fora de casa. É a ponte entre o mundo da família e o coletivo. Ali ela aprende que há outras regras, outras vozes e adultos que merecem ser escutados. Mas essa ponte civilizatória é atacada diariamente. Vemos professores agredidos, ameaçados e desacreditados diante de sua própria turma.

A criança aprende o respeito não pelo que ouve, mas pelo que vê. Quando o adulto xinga o educador no grupo familiar ou o desautoriza diante do filho, a criança conclui que quem ensina não tem valor. E quem não tem valor jamais precisará ser ouvido.

Quando uma família desautoriza o professor, ensina ao filho que ninguém fora de casa merece respeito.

Quem perde nesse processo de desconstrução não é só o professor. É a criança, que fica sem a referência do adulto capaz de lhe oferecer limites, acolhimento sincero e horizontes que vão muito além das paredes do seu próprio lar.

Esquecemos, frequentemente, o peso invisível que o professor carrega. Entra na sala com trinta histórias: o aluno sem jantar, o que sofre em silêncio, o que perdeu alguém. Em meio a isso, precisa ensinar frações, ciências, português…. É mediador e cuidador, quase sempre sem apoio e com salário que não reflete o peso da vocação. E volta no dia seguinte.

Todos nós lembramos de pelo menos um professor. Não do conteúdo, mas de quem acreditou quando ninguém mais acreditava, de quem disse “você consegue” no instante exato. Isso não está em livro algum, e é exatamente o que fica.

O Professor não deixa apenas conteúdo. Deixa uma voz que carregamos pela vida inteira. Não peço perfeição, professores erram como qualquer pessoa. Mas discordar com diálogo é diferente de agredir. Uma sociedade que adoece quem educa, adoece o próprio futuro.

Neste Dia dos Professores, proponho um gesto simples: falar bem de quem ensina na frente das crianças.


Euller Sacramento | Psicólogo Clínico Site: eullersacramento.com.br