Hoje, a caminho do trabalho, presenciei uma cena simples, mas que chamou minha atenção e me fez refletir. Uma mãe pilotava uma bicicleta elétrica, o vento batendo em seu rosto, e o filho, de uns sete ou oito anos, vinha sorridente na garupa. Ele usava capacete, protegido e seguro. Ela, não.

Na hora, pensei: quantas vezes fazemos isso, cuidamos dos nossos filhos com tanto zelo, mas esquecemos de cuidar de nós mesmos? É um gesto de amor, sim, mas também de descuido. Colocamos o capacete neles, mas não em nós. Garantimos que se alimentem bem, mas pulamos o almoço. Levamos ao médico, mas ignoramos nossas dores. E, sem perceber, ensinamos com o exemplo que o amor pelos outros vem antes do amor por si.

Ficamos tão focados em proteger quem amamos que, às vezes, nos colocamos em segundo plano, como se a nossa vida fosse apenas o suporte da vida deles. Mas o que acontece quando o suporte se quebra? Quando o corpo ou a mente não aguentam mais? Quando o pai ou a mãe que sempre esteve ali, de repente, não está mais?
A verdade é que cuidar só dos filhos e esquecer de si não é amor pleno. É amor pela metade. Porque o cuidado que damos precisa ser o mesmo que oferecemos a nós mesmos. O filho protegido de capacete precisa do exemplo de uma mãe que também se protege. O filho que cresce ouvindo sobre coragem precisa ver seus pais enfrentando o próprio medo de parar, de descansar, de pedir ajuda.

Talvez a gente não perceba, mas ao descuidar de nós, passamos uma mensagem perigosa: “o meu bem-estar não importa”. E o que um filho entende disso, senão que o dele também pode esperar?

Quantas vezes já ouvimos alguém dizer: “Eu morreria pelo meu filho”? E eu acredito nisso, sem hesitar. Mas o que quase ninguém pergunta é: “VOCÊ VIVERIA POR ELE?” Viver de verdade. Cuidar da saúde, dormir o suficiente, rir mais, respirar fundo, fazer terapia, ir ao médico, mudar hábitos, se permitir descansar.

Amar um filho é querer vê-lo crescer, mas também garantir que ele nos veja envelhecer ao lado dele. É estar presente e presença não se resume a estar por perto, mas a estar inteiro.

Então, se for preciso escolher, ESCOLHA VIVER. Viver com saúde, com cuidado, com amor próprio. Porque o maior presente que um pai ou uma mãe pode dar a um filho é o privilégio de tê-los por perto, por muitos e muitos anos.

Euller Sacramento é Psicólogo Clínico.
Instagram: @eullersacramento