Quando eu era criança, sempre gostei de matemática. E, modéstia à parte, era muito bom! mas em português, aí já era outra história. Não gostava tanto, não tinha tanta facilidade e, provavelmente, se alguém dissesse naquela época que um dia eu escreveria por prazer, eu acharia graça.
Mas a vida tem dessas.
A gente passa boa parte da infância acreditando que gostar e ser bom são quase a mesma coisa:
Se gostamos, fazemos.
Se somos bons, continuamos.
Se não somos bons, desistimos.
Até que chega à vida adulta e apresenta uma terceira opção: fazer o que precisa ser feito.
Então, foi fazendo que descobri que nem tudo precisa começar com talento. Algumas coisas começam com necessidade. Outras, com compromisso. E muitas acabam virando habilidade simplesmente porque insistimos.
Hoje eu escrevo. E escrevo bastante. Talvez minha professora de literatura até se surpreendesse com o que consigo “colocar no papel”, fiquei bom em algo que nunca achei que fosse exatamente “a minha praia”. Abraço Dona Maria Lopes, quase me reprovou uma vez hein.
Ainda faço contas, algumas até mesmo de cabeça.
Falo em público, mesmo sendo tímido.
Sou detalhista, mesmo tendo meus momentos de desorganização.
E, como pai, descubro diariamente que existem dezenas de coisas que não faço porque gosto, mas porque precisam ser feitas.
Talvez essa seja uma das primeiras grandes lições da vida adulta: não ser bom em alguma coisa não significa que ela não será feita. E ser bom em alguma coisa também não significa que será nela que você vai escolher atuar.
Gostar ajuda.
Ter talento facilita.
Mas compromisso sustenta.
E existe uma diferença importante entre vontade x fazer.
A vontade, muitas vezes, aparece depois.
A gente faz, melhora, percebe algum sentido, começa a gostar. Ou simplesmente aprende a fazer bem aquilo que antes parecia difícil.
Talvez vontade não seja apenas algo que a gente sente.
Talvez vontade também seja algo que, se treina.
É por isso que, quando penso nos meus filhos, tento lembrar que nem sempre preciso ensiná-los a gostar de tudo. Preciso ensiná-los a não desistir de tudo aquilo de que ainda não gostam.
Porque haverá matemática, português, responsabilidades, conversas difíceis, tarefas chatas, compromissos e coisas que ninguém vai querer fazer.
E, ainda assim, precisarão ser feitas.
No fim, talvez a grande diferença não esteja em gostar ou não gostar.
Está em aprender a querer fazer o que precisa ser feito.
Porque talento pode abrir portas. Mas é só a vontade que nos faz atravessá-las.
Por Lévender Mattos.
Escreve crônicas cotidianas como passatempo – mesmo sem vontade. Relatos humanizados inspirados pelo GET – Gabriel, Enzo e Théo. Criador do projeto e página autoral @paiterapia







