Diário da Serra

Na simplicidade e sabedoria da e com a terra

Iolanda Garcia e Rodney Garcia 24/10/2019 Memória

Sua principal ocupação, por mais de dez anos, foi a de carroceiro. Dai, o binômio ‘Juca Carroceiro’

José Gerson da Silva

Na simplicidade e sabedoria da e com a terra

O sonhador e os vendedores de ilusões 

José Gerson da Silva, natural de Ponte Nova, pequeno povoado mineiro, nascido em 21/11/1942. Ainda garoto, acompanhou os pais, José Miguel da Silva e Edir Ferreira da Silva, e mais dezessete irmãos, para a minúscula cidade capixaba de Boa Esperança. Lá, conheceu e casou-se com Maria da Penha, sua companheira a cinquenta e três anos.


Dois anos após o casamento, ficou sabendo das ‘maravilhas’ que era o solo tangaraense, através de pessoas que vieram abrir terra por essas redondezas: “lá, contavam, tem árvore com mais de vinte metros de altura; três homens grandes não conseguem abraçar seu tronco, de tão larga que é. O cacho de arroz dá mais de palmo. O milho é tão grande que não precisa de quarenta espigas para encher um jacá. Tem mamão que pesa mais de quinze quilos. É cada abóbora, que dá gosto de ver.”


Vem-vai-vem-fica

Dois anos após o casamento, já com dois filhos, juntamente com seus pais e mais oito irmãos, alguns casados, no ano de 1968, decidem conhecer a nova fronteira agrícola. Para seu Juca, como ficou conhecido, esse novo espaço representava a possibilidade de uma vida melhor.   Mas, esta viagem não foi só da família Silva. Vieram várias outras; eram três caminhões para transportar as pessoas e mais dois trazendo ‘as traias de casa’ e as ferramentas para a lida. “Foram oito dias em cima de pau-de-arara, parando para comer, beber, tomar banho, ‘fazer as necessidades’ e descansar. Cada família preparava sua comida. O caminho pelo qual nos trouxeram passou por Diamantino, Nortelândia, Arenápolis e por Santo Afonso para chegar até aqui. Aquele trecho era tudo chão. Não subimos a Serra Tapirapuã. Nenhum palmo de asfalto. Viemos com a cara e a coragem.” 


A família não ficou confortável com a pouca estrutura e tudo por fazer. Decidiu voltar no mesmo rastro. Chegando a Boa Esperança – ES, aquele lugar já não mais parecia tão acolhedor quando antes da partida. Refizeram o caminho e aqui, a cinquenta e um anos, passaram por privações e necessidades; criaram raízes; promoveram cultura; amansaram mato e gado; domaram equinos e muares; venderam leite; fizeram cercas; cultivaram arroz, feijão, café, amendoim. Criaram galinhas e porcos. Fizeram queijo. Dos seis filhos, quatro nasceram em solo tangaraense. 


Os trabalhos iniciais, a malária e a emancipação de Tangará

Quando da chegada em definitivo nesta terra, ficaram acampados onde, hoje, é a escola estadual 13 de Maio, perto do bosque Municipal e do Módulo Esportivo. Ali permaneceram por menos de trinta dias. Segundo seu Juca, a primeira colocação foi nas terras de Zé Muniz. “Onde, hoje, é a Unidade Mista, tinha um pedaço de terra que ia até ao Córrego São Pedro. Lá, trabalhamos mais ou menos dois anos, roçando, derrubando, queimando, carpindo, fazendo cerca, plantando, colhendo e dividindo a safra com o patrão. Também, criamos galinhas e porcos para o nosso consumo.” 


Conforme o entrevistado, entre os anos de 1970 e 1972, também conhecido como período malária, trabalhou na propriedade do Zé Pernambuco. “Essa foi a primeira terra que encontramos aberta. Não precisamos derrubar mato para tocar lavoura,” relatou seu Juca. 


“Nessa época, muita gente da nossa família ficou com maleita... eu acho que era... tinha gente que dizia que não era; que era outra coisa. Mas, a verdade é que morreu muita gente. Tinha dia que enterravam mais de dez pessoas ceifadas por essa doença. Todo mundo tinha medo de morrer. Diziam que macaco arrancava o botão da camisa das pessoas, achando que era comprimido.  Acho que Deus ouviu minhas preces: da minha família, não morreu ninguém.”

 
Entre 1972 e 1974, trabalhou nas terras do seu Eurípedes, da Casa da Lavoura, cultivando grãos, criando animais de pequeno porte e mexendo com gado leiteiro.


Seu Juca afirmou que a família Barbosa – Amando e Thais – atuou fortemente no atendimento e no encaminhamento dos doentes que precisavam de cuidados médicos. “Nessa época, ele era vice-prefeito de Barra do Bugres e ele foi prefeito por um tempo. Então, muita gente foi salva, graças a ele e a Dona Thais.” O entrevistado destacou que já se discutia a possibilidade da emancipação político-administrativo de Tangará da Serra. Com esta bandeira, “ele foi eleito deputado estadual; houve o plebiscito, com resultado favorável, viramos município em 1976. Lembro da primeira campanha para prefeito de Tangará da Serra; eram três candidatos. Dona Thais ganhou; foi a nossa primeira prefeita.”


O estudo dos filhos e a lida com animais

Em 1974, consegue colocação em um sítio na região do São José, momento em que matriculou as crianças na escolinha daquela comunidade. “Lá, meus filhos estudaram com as professoras Gracinha e Maria de Lourdes. Ficaram na escola até 1977. Lá, estudaram o José Carlos, o Alonso, a Marina, o Luizmar, a Marlene e a Mariza. Depois que a gente veio para a cidade, muito tempo depois, eles estudaram na Pedro Alberto,” relatou. 


Nesta mesma região, trabalhou na fazenda de Virgílio Rigui, onde permaneceu por quase quinze anos. Sua principal função nesta propriedade foi o cultivo do café. “Eu ajudei a formar muito café naquelas terras. Parecia que as plantas cresciam com o jeito que a gente lidava com elas.” Entre uma e outra atividade agrícola, dedicou parte de seu tempo a tirar e a comercializar leite. “Eu fui leiteiro por muito tempo. Entreguei leite para muita gente, nessa cidade. Essa atividade me ajudou a ficar conhecido de muita gente,” contou. Segundo ele, a patrão ficava apenas com o leite para o consumo da fazenda; o restante, ele poderia comercializar e ficar com o dinheiro. Informou que, além do comércio do leite, a criação e a engorda de porcos também lhe rendeu um bom dinheiro. “Foi desse dinheiro que eu comprei, amansei muito animal para lida. Para mim, não tinha cavalo, burro ou mula bravo; eu conseguia deixar o animal pronto para lidar com gado, passear, puxar carroça. Então, dessa compra e venda de animais, eu conseguia algum dinheirinho a mais”. Com o tempo, relatou, a saúde em nada colaborava com atividades desenvolvidas. “Ai, né!? Eu tive que deixar de amansar os bichinhos.” 


Seu Juca informou que trabalhou nas terras de Juvenal Moreira, fazendo cercas, plantando, roçando, criando porcos e galinhas, mexendo com leite. “Naquela época, não tinha colheitadeira. A gente colhia o arroz no cutelo, esperava secar e empilhava. Depois de seco, a gente batia nas bancas. E o arroz, para limpar, tirar a casca, era no pilão. Depois de pilado, a gente abanava e estava pronto para o consumo. Tinha também o feijão, a gente arrancava, esperava secar e depois batia com cambão para poder tirar seus grãos das vagens. Era serviço pesado.  A gente fazia com gosto. A gente fazia para a gente. A gente fazia para os amigos. Fazia para os vizinhos. E não cobrava nada. Às vezes, a gente trocava serviços,” relatou.


Conforme o entrevistado, os principais compradores de cereais, à época, eram o Wando, da Vila Goiânia; o Saturnino Masson; e o seu Eurípedes, da Casa da Lavoura. “Tudo que a gente colhia, eram eles quem compravam. Às vezes, iam buscar na roça.”


Saúde frágil e a urbanização do lavrador

Doenças que vem com o tempo, conforme declarou seu Juca, o fez deixar quase trinta e cinco anos dedicados ao cultivo do solo, da lida com gado e do adestramento de equinos e muares. Na década de noventa, muda-se para a Vila Esmeralda.  Já aposentado como trabalhador rural, na cidade, dedicou parte de seu tempo a cuidar de chácaras, de algumas propriedades urbanas. Foi guarda noturno. Mas, a sua principal ocupação, por mais de dez anos, foi a de carroceiro. Dai, o binômio ‘Juca Carroceiro’. “Enquanto a saúde ajudava, comigo não tinha tempo ruim. Aqui, na cidade ou lá na roça, a gente acordava primeiro que o sol e trabalhava enquanto tinha serviço. Foram poucos os dias que eu cheguei em casa antes do sol se pôr. Era sempre antes e depois do sol,” relata, orgulhoso da sua condição de trabalhador.


Realizações, ensinamentos e aprendizados

De suas realizações e contribuições pessoais, aliadas à religiosidade, destaca o fato de ter ajudado a carregar caminhões com cascalho, que serviram para aterrar as fundações da Igreja Matriz. “A gente ia na beira do Sepotuba buscar cascalho para aterrar a igreja. Naquela época, a gente enchia os caminhões com as pás. Não tínhamos pá carregadeira. Nem todos os caminhões eram basculantes. Os basculantes, para descarregar, era fácil. Os de carroceria de madeira, todo o serviço de descarrego das pedras era na pá, no enxadão e na enxada. Foi um trabalho muito gratificante,” relatou o entrevistado. A atual Igreja Matriz – Nossa Senhora Aparecida –  foi inaugurada em 1979.


Conforme seu Juca, “as coisas que são da gente, são da gente. Eu conto para você e para quem quiser, eu nunca precisei pegar nada de ninguém. Aprendi com meus pais. Ensinei para os meus filhos. Pois, conforme papai me ensinou, onde a gente vai, o nome da gente chega primeiro.” Graças a estes princípios, reitera o entrevistado, todas as pessoas para tem trabalhou o olham com respeito e admiração, pois, relata: “o combinado não é caro. O respeito às pessoas não custa nada.”


Dos seis filhos, quatorze netos e quatro netos, aprendeu, desde cedo, a viver de seu suor, a zelar pelo seu nome e a respeitar as pessoas. “Já escutei conselho de tudo quanto é tipo. Conselho bom. Conselho ruim. Só aceitei aqueles não envergonhariam a minha família e nem manchariam o meu nome,” relatou.


Seu Juca permanece anônimo, à margem da história da cidade, do município que ajudou a construir. Segundo ele, “fiz muito por esta terra. Esta terra me deu muita alegria. Só não tenho muita coisa de valor. Mas, os valores que ensinei, meus filhos carregam até hoje e ensinam para os filhos deles.”
 

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