“E se você fizer tudo certo, eles voltam para almoçar aos domingos.”

Acreditei nisso por muito, muito tempo.

Mas hoje acordei pensando diferente. Porque nem sempre eles voltam. E isso não significa que você errou.

Às vezes, você fez tudo certo. Deu colo, presença, limites, amor e tempo. Ensinou o que podia, esteve por perto quando precisaram e, aos poucos, preparou cada um para o mundo.

Só que chega uma hora em que a vida chama. E existe uma coisa com a qual nenhum pai consegue competir: a vida que os filhos ainda precisam descobrir.

Ela apresenta oportunidades que eles nem imaginavam existir, lugares que nunca sonharam conhecer, pessoas que vão mudar seus caminhos. E, quando você percebe, aquilo que um dia ensinaram a eles sobre coragem deixa de ser discurso e vira escolha.

Eles vão. Não porque querem ficar longe, mas porque aprenderam a viver.

E a distância, que antes era só a porta do quarto, passa a ser medida em quilômetros, oceanos, fronteiras e fusos horários. A saudade também muda. Aprende a morar em silêncio no quarto ao lado, nas fotografias espalhadas pela casa e naquele domingo em que sobra comida na mesa.

A paternidade tem dessas contradições.

A gente cria os filhos sem esperar nada em troca, mas guarda, lá no fundo, uma esperança quase infantil: a de que eles voltem para almoçar aos domingos. Que apareçam sem avisar, contém as novidades, reclamem da comida ou simplesmente ocupem o sofá como se nunca tivessem saído dali.

Talvez fazer tudo certo não seja criar filhos que ficam. Talvez seja criar filhos que conseguem partir sem medo.

Que ocupam seus espaços, constroem seus lares, amam outras pessoas, descobrem quem são e escrevem a própria história. Mesmo quando essa história acontece longe dos nossos olhos.

Sim, a casa fica mais silenciosa. Mas alguma coisa dentro da gente cresce. Porque, se antes o nosso mundo cabia naquela casa, agora ele também existe nos lugares onde nossos filhos aprenderam a ser quem são.

Talvez uma das maiores provas de que deu certo seja justamente essa: o quarto ao lado ficar vazio, não por falta de amor, mas porque o amor cumpriu seu papel.

Então, aproveite.

O quarto bagunçado, as refeições em família, as conversas que atravessam a noite, as pequenas interrupções e até aquela bagunça que hoje parece não ter fim.

Aproveite enquanto a distância entre vocês ainda é um corredor.

Porque um dia eles podem estar literalmente do outro lado do mundo. E você vai descobrir que uma casa pode estar vazia de gente e, ainda assim, transbordar de memórias.

Talvez, num desses domingos, olhando para tudo o que ficou, você entenda que fez tudo certo. Não porque eles voltaram, mas porque tiveram coragem de ir.

E, se eu puder pedir alguma coisa à vida, é que me permita continuar acertando.

Só mais duas vezes.

Porque ainda tenho mais dois filhos para preparar para o mundo. E, por mais que eu saiba que esse é o caminho, confesso: ainda espero que eles voltem para almoçar aos domingos.


Por Lévender Mattos.

Escreve crônicas cotidianas como passatempo, aproveita a família aos domingos. Relatos humanizados inspirados pelo GET – Gabriel, Enzo e Théo. Criador do projeto e página autoral

@paiterapia